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quinta-feira, 16 de junho de 2016

NIETZSCHE E O AMOR COMO APROPRIAÇÃO DO OUTRO

George Sarmento

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) é considerado um dos filósofos mais importantes do pensamento ocidental. Suas ideias  são controvertidas, surpreendentes, provocadoras, impactantes, alvo de infindáveis discussões acadêmicas. O autor de obras filosóficas de grande densidade como E assim falou Zarathustra (1885), Além do Bem e do Mal (1886) e Ecce Homo (1888) instiga e atrai estudiosos de todo o mundo. Ferrenho crítico da moral judaico-cristã, dedicou-se a desmascarar os preconceitos da sociedade de sua época, procurando interpretar o que se esconde por trás dos valores burgueses. Neste post desenvolvo alguns aspectos de sua crítica ao amor e ao casamento. Para quem não está disposto a visitar seus livros, recomendo 100 aforismos sobre o amor e a morte (editado pela Companhia das Letras e Penguin), que  reúne os principais escritos do filósofo sobre o tema. O organizador, Paulo César de Souza, teve o mérito de selecionar as  passagens mais paradigmáticas sobre o amor - até então dispersas em várias de suas obras.

Eis a questão: o que se pode entender por amor-paixão na filosofia nietzschiana?

Enquanto muitos acreditam que o amor é a manifestação mais pura do altruísmo e da devoção ao outro, Nietzsche sustenta que ele expressa o inato egoísmo que habita em cada um de nós, sobretudo o inesgotável desejo de se apropriar da pessoa amada. Não está em jogo a felicidade do outro, o exercício de sua auto-determinação, o agir sem a interferência de quem quer que seja. O que importa é o desejo de transformar em propriedade a pessoa que encarna o produto de nosso amor. Para o filósofo alemão,  o amor sexual é a materialização de nossa ânsia de propriedade. Por isso "o amante quer a posse incondicional e única da pessoa desejada, quer poder incondicional tanto sobre a alma como sobre o corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável". 

Para tomar posse do território sentimental não há limites: jogos de sedução, juras de amor, súplicas desesperadas, humilhações aviltantes, atos heroicos. Essas armadilhas fazem parte do discurso que se destina a persuadir a vítima a capitular sem impor condições. Ao aceitar a relação amorosa, ela cede inconscientemente uma grande parcela sua liberdade e permite  a  apropriação de sua vida amorosa. O amor, para Nietzsche, é uma insidiosa armadilha do egoísta, que termina por saciar o seu desejo de conquista, abrindo caminho para outras formas de dominação.

O egoísta aspira ser o único alvo dos sentimentos da pessoa amada. Acha que só ele é merecedor daquele amor. Por isso trata de isolá-la das relações sociais anteriores. Exige exclusividade e total devoção. Desenvolve um acentuado sentimento de ciúme e passa a ver ameaças em todos os lugares. De repente os amigos se afastam, escaceiam-se as visitas familiares, os clientes diminuem. Ele tenta persuadi-la que se tratavam de pessoas artificiais e invejosas, cuja partida trará grandes benefícios para o casal. Pouco a pouco começa a introduzi-la em seu universo, desenraizando-a de seu passado até roubar-lhe a subjetividade. O distanciamento dos entes queridos  alimenta o processo de apropriação sobre o outro. Cria todas as condições para o exercício da posse, ainda que por meio de pequenas compensações. 

Muitas vezes a vítima não se deixa seduzir e rompe a relação amorosa. Ao ver seus objetivos de dominação fracassarem, muitas pessoas passam a adotar uma postura submissa: vitimizam-se, prometem fidelidade eterna, abundância de bens materiais, choram copiosamente ou ficam deprimidas. Outras vezes são violentos e cruéis. Por trás desses discursos, está latente o desejo de apropriação do outro. Se ele cede, logo os atos de posse e de dominação reaparecem. Se a vítima não muda de ideia, o opressor sente profunda dor, o "chagrin d'amour" - fruto do orgulho ferido -, que só acaba quando as atenções voltam-se para outra vítima. E aí tudo recomeça.

Para Nietzche, o fenômeno funciona mais ou menos assim: o rapaz  (mas poderia ser a mulher) é apresentado a uma moça por amigos comuns e, de repente, se sente flechado pelo cupido, tem a sensação de ter sido atingido por um raio, passa a ver a vida sob outra perspectiva. Inconscientemente brota nele o desejo de apropriar-se de sua "amada" para tornar-se exclusivo e imprescindível para ela. Essa ideia domina seus pensamentos, enraíza-se em sua mente, conduz suas ações, fazendo-o acreditar que encontrou a outra metade de seu ser para fazê-lo eternamente feliz. Começa então um jogo de sedução cujo principal objetivo é conquistar o amor que ainda não tem. E aquilo que lhe falta transforma-se na coisa mais importante de sua vida. Às vezes o desejo de posse sequer é percebido pela razão, está escondido nos recônditos da psiquê. Se a moça aceita incondicionalmente o amor, faz concessões, cede sua liberdade. Capitula. Resultado: o desafio deixa de existir. A posse está consumada, o que é motivo de grande prazer, de verdadeiro regojizo momentâneo. Porém, com o tempo, não há mais mistério, o desejo começa a diminuir, o rompimento parece inevitável e logo ele vai em busca de novos territórios a serem ocupados. Se a moça não se deixa conquistar, o processo de apropriação se frustrará causando grande sofrimento ao amante rejeitado, que sofrerá profundamente até que seu interesse se volte para outra vitima. E aí tudo recomeça. Tudo isso ocorre porque o desejo de posse é indissociável da natureza humana, alimentando a vaidade, o orgulho e, muitas vezes, o machismo. Isso pode explicar a efemeridade dos amores contemporâneos tão bem descritos em várias obras de Zygmunt Bauman.

A literatura judiciária está repleta de crimes motivados pela rejeição amorosa. Na maioria dos casos, o criminoso não sabe lidar com a perda da posse, com o orgulho ferido, com a vaidade arranhada. Narrativa notável sobre o tema pode ser encontrada livro Paixão e Crime, escrito na década de 60 pelo polêmico jornalista Carlos Lacerda. Destacado para cobrir o julgamento do maître Pierre Jaccoud, eminente político e advogado suíço, acusado do assassinato de Charles  Zumbach (pai de seu rival), Lacerda deparou-se com uma personalidade complexa, capaz de correr todos os riscos - inclusive a desgraça pública - para satisfazer seus desejos de apropriação. Ao traçar o perfil do acusado, até então considerado um cidadão acima de qualquer suspeita,  revela uma alma dominadora, incapaz de aceitar  o rompimento de sua amante, a jovem Linda Baud. Movido pelo egoísmo, Maître Jaccoud desenvolveu o complexo de Pigmaleão, pois quis transformar Linda Baud numa projeção de sua própria imagem, decidindo recriá-la, modelá-la, aperfeiçoá-la. Quando ela se recusou a representar o papel, o acusado entrou em desespero e decidiu praticar o crime.  

Por que o desejo de posse está tão incrustado no ser humano? Nietzche explica esse fenômeno pela propensão natural de auto-renovação. A posse significa a reintrodução de algo novo em nós mesmos, funciona como a reinvenção de nossa subjetividade. É motivo de verdadeiro regojizo. "Meu marido", "meu apartamento", "minha casa", "minha viagem", "minhas joias", tudo isso tem sabor irresistível no momento da apropriação. O problema é que logo nos cansamos dos objetos ou pessoas  e partimos em busca de outras conquistas, já que uma posse será sempre substituída por outra posse. "Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo", diz o filósofo. Por isso,  o amor nada mais seria que o desejo de nova posse que alimenta e faz com que a conquista seja motivo de grande prazer.

Outro aspecto importante do pensamento de Nietzche - com evidente influência de Kant - é a constatação da impossibilidade de se controlar os sentimentos amorosos para garantir as expectativas do outro.  O sentimentos suplantam a racionalidade. São ingovernáveis pela razão. Quando prometemos amor eterno, mentimos (ou nos enganamos); afirmamos algo que não podemos garantir. O máximo que se pode fazer é prometer atos específicos, ainda que tenham motivações distintas. Para ele, a promessa de amar eternamente alguém significa: "enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei a praticar esses mesmos atos, ainda que por outros motivos". Exemplo: a mulher apaixonada cerca o homem de cuidados, gentilezas, respeito e doçura; por sua vez o homem com o coração pleno de amor age com cavalheirismo, cumplicidade, carinho e fidelidade. Acreditam que será assim para sempre. Aspiram a sensação de plenitude. Mas se um deles deixa de amar, o outro continuará a praticar os mesmos atos sem que isso implique contradição ou hipocrisia.

Nietzche é contrário à ideia de igualdade de gênero. Para ele, existe verdadeira assimetria entre os direitos do homem e da mulher no amor. As condutas são guiadas pelo determinismo genético, que não pode ser modificado por contrato social ou desejo de justiça. O amor possui significados absolutamente distintos a depender do sexo. A mulher vê o amor como dedicação e entrega incondicional ao homem escolhido, o que implica total renúncia de direitos e fidelidade absoluta.

Por outro lado, o homem anseia por dedicação, que é o principal componente da posse conquistada. Daí Nietzche afirmar que "a mulher quer ser tomada e aceita como posse, quer ser absorvida na noção de posse, de possuído". Para o homem, o amor resume-se a um querer-ter, o que não comporta renúncias ou concessões. Se o homem age como mulher, agindo com profunda generosidade, transforma-se em escravo e atrai o desprezo do sexo oposto. Assim, o papel de cada cônjuge estaria bem delimitado com a satisfação de expectativas cognitivas orientadas pela natureza das coisas. Esse equilíbrio só seria quebrado se o homem decidisse se distanciar de sua condição de dominador. Se, por amor, ambos abrissem mão do poder, o resultado seria um verdadeiro vazio existencial que terminaria por infernizar suas vidas.

Em sua formulação teórica, o casamento surge como a mais alta forma de amizade espiritual entre pessoas de sexo diferente. Por isso não pode ser baseado no amor. Os casais apaixonados deveriam ser proibidos de tomar decisões sobre esse importante passo da vida, pois vivem em estado alterado da consciência. Sob o efeito do que supõem ser amor - frequentemente confundifo com paixão - eles sempre vêem as coisas como não são, pois a força da ilusão está no seu apogeu. Nessa condição perdem a noção de realidade e passam a ver as coisas distorcidas. Nietzche também é partidário dos casais que vivem em casas separadas, decisão essencial para o bom casamento. Em suas palavras: "se os cônjuges não morassem juntos, os bons casamentos seriam mais comuns". A distância geográfica entre os cônjuges aumentaria o clima de mistério e prolongaria a ruptura inevitável, pior ainda, a falta de interesse pela pessoa conquistada.

Ao invés de satisfação sexual, o matrimônio tem como objetivo maior gerar e educar uma nova geração. O amor sobreviveria na prole que, em tese, seria a garantia da perpetuidade da espécie. Ele chega a recomendar a adoção de concubina para desempenhar o papel de elemento sexual suplementar a fim de aliviar a carga que recai sobre as costas da mulher na administração do lar. A boa esposa está plenamente ocupada em ser boa amiga, ajudante, genitora, mãe, cabeça da família, administradora etc.

Portanto, as relações sexuais não seriam determinantes para a manutenção do casamento. Nietzche sustenta que as afinidades intelectuais e de gostos são indissociáveis da vida a dois. A convivência pressupõe diálogo entre os cônjuges. Mais do que isso, está baseada no prazer da conversa, da convivência, da cumplicidade. A afinidade dos laços matrimoniais se constrói a partir da prática dialógica. O casamento é, acima de tudo, uma longa conversa. Com a palavra o filósofo: "ao iniciar um casamento, o homem deve se colocar a seguinte pergunta: você acredita que gostará de conversar com essa mulher até na velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas a maior parte do tempo é dedicada a conversa". Penso nisso quando vejo longos silêncios entre casais em restaurantes, que mal se olham e cujas companhias nada mais são que um espectro de um passado cheio de mágoas e rancores.

As ideias de Nietzche  fustigam a moral judaico-cristã, colocando em dúvida os seus valores e convicções. Muitas vezes dando uma visão árida do amor - sentimento no qual depositamos todas as esperanças. Temos dificuldade em perceber esse sentimento tão doce como uma forma de dominação do mais fraco, de apropriação, de posse. Pode-se até mesmo discordar de tudo que ele defende, sobretudo de seu pessimismo em relação à nossa felicidade. Mas é inegável que o pensamento do filósofo alemão é rico, autêntico, corajoso e revolucionário, pois nos convida a retirar as máscaras da face para que nos percebamos tal como fomos criados, sem o verniz da civilização. Cruamente. Sem subterfúgios.

PARA REFLEXÃO: OUTROS AFORISMOS DE NIETZCHE


  • Após uma desavença e disputa pessoal entre uma mulher e um homem, uma parte sofre mais com a ideia de ter magoado a outra; enquanto esta sofre mais com a ideia de não ter magoado o outro o bastante, e por isso se empenha depois, com lágrimas, soluços e caras feias, em lhe amargurar o coração.
  • Às vezes bastam óculos mais fortes para curar um apaixonado; e quem tivesse força  de imaginação para conceber um rosto, uma silhueta vinte anos mais velha, talvez passasse pela vida imperturbado.
  • Em toda espécie de amor feminino também aparece algo do amor materno.
  • Para a doença masculina do autodesprezo o remédio mais seguro é ser amado por uma mulher inteligente.
  • o que é o amor, senão compreender que que um outro viva, aja e sinta de maneira diversa e oposta da nossa e alegrar-se com isso?
  • Todo grande amor traz consigo o cruel pensamento de matar o objeto do amor, para subtraí-lo de uma vez por todas ao sacrílego jogo da mudança: pois o amor tem mais receio da mudança que do aniquilamento. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

O MEU PAPAI NOEL

George Sarmento

Fui uma criança que acreditou ardentemente em Papai Noel. A crença em sua existência foi o meu primeiro dogma. O velhinho risonho, de bochechas coradas, barbas alvas e longas, era pura bondade. Fascinava-me o seu jeito democrático de visitar os lares e realizar os sonhos dos pequeninos de todos os continentes. Por onde passava distribuía alegria, confortava os enfermos, reacendia a esperança nos corações.
Ele também era puro mistério. Entrava e saia das casas de forma espetacular, surpreendente. Rápido e astuto, ninguém conseguia vê-lo ou detê-lo. Eu esperava ansiosamente sua visita até ser vencido pelo sono. Ao acordar corria para a árvore de natal. Olhava extasiado os pacotes coloridos em busca dos presentes que me cabiam: carrinhos, bolas de gude, espadas de plástico, máscaras de super-heróis. Certo dia meu pai irrompeu no quarto e, ofegante, afirmou ter surpreendido o bom velhinho, mas ele tinha escapado. Guardava em suas mãos o chumaço da barba branca e uma grande caixa lindamente embrulhada. Era a prova definitiva de sua presença em nossa casa.
Meu coração de criança ainda não tinha sido apresentado às misérias do mundo. Sequer suspeitava das injustiças sociais, da pobreza, da forme, da inveja e do ódio. Nesse natal ganhei de presente uma bola de couro. Dormi abraçado a ela sonhando com a pelada do "campinho do cajá", que reunia os garotos das redondezas. Seria uma novidade, já que usávamos sempre uma de plástico - a conhecida bola dente de leite. Não sei como, mas alguém furou a couraça por pura maldade. Protestei dizendo que havia sido um presente de Papai Noel. Alguns desdenharam de minhas certezas até então inquebrantáveis. Juravam que ele não existia, que era pura invenção dos adultos.
Foi assim que descobri a verdade. Saber que se tratava de invenção decepcionou-me mais que a covardia de que fora vítima. Ele era meu amigo fiel, ouvia meus desejos, lembrava-se de mim todos os anos. A constatação de que tudo era irreal foi decepcionante. Talvez esse tenha sido o fim de minha infância e a preparação para a difícil adolescência. Eu cursava o primário numa escola pública frequentada por crianças de todas as classes sociais. Até então não tinha percebido as contradições de uma sociedade injusta, marcada pela violência e pela péssima distribuição de renda. E esse foi o começo do longo aprendizado em torno dos valores éticos que plasmariam meu caráter.
O tempo passou e ainda hoje o personagem Papai Noel me fascina. Não pelas roupas vermelhas ou pelo trenó puxado por renas que corta as noites de natal. Tampouco pelos elfos mágicos que o cercam. Mas pelos bons sentimentos que ele evoca por onde passa. Sobretudo por prolongar a pureza da infância,  por tornar bela a espera, por  fazer brilhar os olhinhos inocentes diante da realização de um sonho doce e efêmero.
Hoje sei que o Papai Noel vive dentro de mim. É o arquétipo de generosidade, indulgência e acolhimento. É a utopia que pulsa e me impele a ser uma pessoa melhor, mais comprometida com o progresso moral e os ensinamentos cristãos. No natal procuro resgatar a criança que um dia fui e me presenteio com algo que me faça feliz. É a autocompensação por mais um ano vivido. Por não ter sucumbido ao desânimo, à indiferença e à acomodação. Mas também gosto de ficar sozinho e pensar em todas as pessoas queridas, vivas e mortas, que foram imprescindíveis para que eu trilhasse até aqui os sinuosos caminhos da vida. Tudo para lhes agradecer as ações edificantes ou pedir-lhes perdão pelos sofrimentos que, consciente ou inconscientemente, causei dada a imperfeição de minha humanidade.
   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CARIDADE NÃO É OBRIGAÇÃO

GEORGE SARMENTO

Fiquei surpreso quando minha professora de direito do trabalho anunciou sua aposentadoria. Era uma mulher ainda jovem e ativa, que gozava de excelente saúde. Perguntei-lhe a razão da repentina decisão. Ela respondeu:

- Já dei minha contribuição ao magistério. Agora pretendo dedicar-me ao voluntariado. Estou à procura de uma instituição que faça trabalho filantrópico para que eu possa ajudar. A caridade... Acho que esse é o sentido da vida.

Alguns meses depois, reencontrei-a na rua e perguntei-lhe:

- Como vai a ajuda aos necessitados? A senhora está militando em que instituição?

- Meu amigo, ela respondeu, a coisa mais difícil do mundo é ajudar os pobres. Ofereci meus préstimos a várias instituições e todas negaram. Fui recebida com muita desconfiança... Pensavam que eu queria fazer política ou tirar algum benefício pessoal. Desisti. Agora pratico yoga todos os dias e busco ajudar meu próprio “eu”.

Lembrei-me desse episódio ao chegar ao Ministério Público, onde teria audiência com alguns idosos ameaçados de despejo do prédio público em que desenvolvem atividades culturais há mais de 10 anos. São integrantes de associações informais que não recebem um centavo do poder público, mas oferecem atividades como dança de salão, capoeira, bumba-meu-boi, academia de ginástica etc. São 650 pessoas carentes que se beneficiam dos serviços ofertados gratuitamente.

Os dirigentes foram pegos de surpresa pela cessão do espaço a um instituto que ambiciona congregar todos os idosos da cidade em seus domínios e, assim, fortalecer determinadas candidaturas ao parlamento alagoano. Coincidentemente, a beneficiária é uma ONG que já recebeu generosas contribuições dos cofres públicos sem participar de qualquer processo licitatório. As vítimas só tomaram conhecimento do despejo pelo Diário Oficial e estavam preocupadíssimas com o encerramento das atividades.

Foi aí que percebi que a professora tinha razão. Está em curso um verdadeiro processo de apropriação dos hiposuficientes no Brasil. Velhinhos, crianças, adolescentes, portadores de deficiência, desempregados, todos são alvos de supostos defensores de sua dignidade. No fundo querem fazer um “belo” trabalho social regado a recursos públicos. Descobriram que a caridade pode se transformar num negócio muito lucrativo. Por isso não há espaço para o homem de bem que queira ajudar, movido exclusivamente por sentimentos altruístas.

A caridade é defendida por todas as religiões que conheço. Muitos pensam que é um passaporte para o céu e um salvo-conduto para generosas benesses terrenas. O “político caridoso” usa os meios de comunicação para divulgar seus atos de benemerência com o objetivo angariar votos. Muitos votos. Para mim, a caridade tem de ser espontânea, desinteressada, discreta. Deve ser praticada sem alarde. É a maior expressão de compaixão e amor ao próximo. Alegra muito mais a quem dá do que a quem a recebe. Sua beleza está em saber que um pequeno gesto pode mudar a vida de seu semelhante.

O problema é quando a caridade se torna uma obrigação. O prazer de ajudar ao próximo transforma-se em dívida que não admite atraso. Passa a ser compulsória e improrrogável. Em algumas ocasiões resolvi ajudar instituições religiosas ou caritativas que desenvolvem projetos sociais interessantes. Pouco a pouco as exigências financeiras aumentaram e os telefonemas de cobrança passaram a infernizar minha vida. Isso sem falar nas correspondências contendo mensagens subliminares para pressionar o incauto a “abrir o bolso”. Para atingir os objetivos, não poupam nada nem ninguém: imagens de santos, terços, água benta engarrafada e por aí vai...

Certo dia bateu à minha porta um homem vestindo roupas rotas e um chapéu surrado. Sabia o meu nome e se dizia um grande admirador de minha atuação como promotor de justiça na comarca de Batalha ao longo dos anos 80. Disse-me que havia entrado no MST e que agora era um feliz proprietário de gleba num assentamento em Maragogi, região litorânea de Alagoas. Foi então que me entregou uma pequena cesta com produtos de sua roça: inhame, macaxeira, batata doce e algumas bananas. Disse-me que era um presente de admirador. Fiquei muito sensibilizado com o gesto de ofereci-lhe uma quantia em dinheiro como prova de meu agradecimento. Abraçamo-nos fraternalmente e nos despedimos.

O mesmo gesto de “amizade” repetiu-se nas semanas seguintes, sempre com mesmo resultado, um dinheirinho para pagar a passagem e comer alguma coisa. Certa feita, dormi até mais tarde e não pude recebê-lo pessoalmente. Mas pedi que lhe entregassem uma quantia um pouco menor que a habitual. Ele recebeu o dinheiro mas se recusou a deixar o “presente”. Dias depois, tentava estacionar o meu carro na Aliança Francesa, quando vi que ele estava à espreita. Quem teria dado o meu endereço de trabalho? Fui logo dizendo que não queria a mercadoria. Ele retrucou com insolência que perdera o seu tempo me esperando e agora seria obrigado a voltar para casa de mãos abanando. Toda a doçura inicial se desvanecera. Agora era um homem violento, desapontado por não receber o dinheiro esperado. Vi que minha bondade inicial, espontânea, caritativa tinha se transformado num compromisso sucessivo e implacável. O prazer que sentia em ajudá-lo transformou-se num desagradável incômodo. Resultado: cortei o mal pela raiz.

Esse episódio me fez lembrar um texto de Jean-Jacques Rousseau no livro Devaneios de um Caminhante Solitário. O filósofo defende a tese de que as boas ações são a expressão da liberdade do benfeitor. Devem ser sempre motivo de prazer, de alegria. Quando a caridade deixa de ser espontânea para sucumbir às pressões externas, torna-se uma dívida e perde toda a sua essência. Esvazia-se em si mesma.

Acredito na solidariedade. Acho que cada cidadão tem a responsabilidade social de ajudar o seu semelhante. Penso que os brasileiros deveriam dedicar-se mais ao voluntariado e à ação humanitária. Essa é uma inegotável fonte de felicidade, que produz endorfina em abundância. Além disso, o engajamento nos movimentos sociais aprimora a democracia e fortalece o Estado de Direito. Entretanto, é preciso ter cuidado com os exploradores da boa-fé alheia, pessoas inescrupulosas que se aproveitam de sentimentos como o altruísmo para desenvolver atividades lucrativas nada compatíveis com os ideais religiosos ou éticos.

É preciso compreender que caridade não é obrigação, mas opção. Caracteriza-se pela ausência de coerção externa. A decisão tem de ser espontânea, fruto da vontade consciente de ajudar o próximo com seu trabalho ou com seus bens, sem nada pedir em troca. Por isso é preciso ter cuidado para escapar das armadilhas baseadas na chantagem emocional, no medo do inferno, na insistência do pedido ou nos boletos de cobrança que todos os dias chegam às nossas casas. Lembre-se, amigo: doador não é devedor, nem está sujeito a execuções judiciais ou divinas. Se quer ajudar, basta seguir o chamado de seu coração. Você estará no caminho certo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O QUE PODERIA TER SIDO SE...

GEORGE SARMENTO
A vida tem várias facetas envoltas em insondáveis mistérios. O ser humano é capaz de satisfazer-se com o que conquistou? Por que o vazio existencial insiste em nos atormentar depois que atingimos determinado objetivo? Será que precisamos de desafios permanentes e infinitos para nos sentirmos vivos? Tenho meditado muito sobre essas questões, mas não tenho resposta definitiva. Acho que nunca desvendarei essa trama.

Uma tese muito recorrente na obra poética de Mendonça Júnior é a de que os desejos que permanecem na dimensão dos sonhos são muito mais importantes que as realizações terrenas: "Se o bem mais desejado, à mão, nos vem, ao estreitá-lo no peito, já todo o seu encanto está desfeito e nem parece mais o mesmo bem". O soneto Velocípede, transcrito abaixo, é a metáfora das aspirações frustradas que se fixam na memória como possibilidade longínqua de felicidade. Elas existem para jamais serem satisfeitas, posto que habitam na dimensão do que poderia ter sido se....

Parece que estamos condenados a viver eternamente incontentados, insatisfeitos com a vida real. O sonho inatingível é a grande utopia individual, o Jardim das Delícias, o Éden espiritual. Admiro muito as pessoas resignadas, perfeitamente satisfeitas e felizes com a concretude da realidade cotidiana. Talvez esse seja o caminho da serenidade, ou da "tranqüilidade da alma", como preferia Sêneca.

Não sei se é maldição ou destino a incessante busca dos sonhos impossíveis. Acho que é por isso que tantas pessoas dedicaram suas vidas a procurar a Pedra Filosofal, a Fonte da Juventude, o Santo Graal, o Eldorado. Talvez seja essa a força que impulsiona a vida e impede a acomodação estagnante; talvez seja a expectativa de viver algo extraordinário, inusitado, fantástico. As pequenas conquistas do cotidiano alegram e alimentam a auto-estima. Elas são necessárias para fortalecer o espírito e me estimular a seguir em frente. O sentimento de frustação é derrotista, desanimador. Mas confesso, que os velocípedes cromados também povoam meus devaneios...


O VELOCÍPEDE

Mendonça Júnior
Ainda sinto que me falta
o lindo velocípede cromado
que foi a minha aspiração mais alta
e o meu primeiro sonho malogrado.

Frequentemente, ante os meus olhos salta
esse brinquedo que me foi negado
e o menino de outrora ainda se exalta
e esbraveja, sentindo-se frustrado.

Consola-me pensar que nehum bem,
depois de conquistado se mantém
ao nível em que pairou como esperança

E só se guarda vivo na lembrança
Aquilo que se quer e não se tem,
o que mais se deseja e não se alcança.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A FELICIDADE NO COTIDIANO

GEORGE SARMENTO
Em recente entrevista à Paris Match, Sebastian Marroquin, filho do sanguinário narcotraficante Pablo Escobar, Chefe Supremo do Cartel de Medelín, na Colômbia, falou do documentário intitulado Os Pecados de Meu Pai, que será exibido em breve nos cinemas. Depois de viver muitos anos na Argentina, resolveu assumir sua verdadeira identidade, contar a história da família e pedir desculpas ao povo colombiano pelas atrocidades cometidas pelo pai.
Durante a perseguição implacável imposta a Escobar, Sebastian foi obrigado a viver trancafiado nas centenas de esconderijos escolhidos pelo Cartel de Medelín. O regime de "prisão domiciliar" durou cerca de 10 anos, consumindo toda sua infância. A agonia só acabou quando o narcotraficante foi encontrado pela polícia e morto após violenta troca de tiros em 1993.
Num dos trechos mais pungentes da entrevista, Sebastian relembra os dias de fome que passou quando se encontrava abrigado em casa de agricultores, nas imediações da cidade Medelín. Os policiais montaram uma barreira na frente do esconderijo e ali permaneceram durante uma semana, sem saber que os foragidos estavam tão perto. Pablo Escobar mantinha dois sacos contendo a quantia de 2 milhões de dólares em espécie. Mas com toda essa dinheirama, a família não podia comprar sequer um pedaço de pão.
Esta situação paradoxal, obriga-nos a refletir sobre a dicotomia riqueza-liberdade. De que adianta sermos ricos, poderosos e temidos se não podemos gozar os prazeres simples da vida como ir à padaria do bairro ou visitar o melhor amigo? E ter milhões na conta bancária, mas viver sob permanente tensão já que a fortuna foi obtida ilicitamente? Vale a pena tanto apego às coisas materiais se somos obrigados a abdicar dos prazeres mais singelos como chupar um picolé, comer pipoca na praça ou sentar nas areias da praia para contemplar um belo pôr do sol? Sei que estou entrando em terreno perigoso, pois essas questões são universais e foram discutidas pelos grandes filósofos desde a Antiguidade.
Em meu ofício de promotor de justiça, vejo a vida de tantos jovens se despedaçar ao entrar no mundo do crime! Mortes prematuras, inocência perdida, infância fanada, famílias despedaçadas... Em troca de quê? De um celular de luxo, roupas de grife, algum dinheiro e a vida abreviada por uma execução sumária. Outros que tinham tudo, mas que desperdiçam suas carreiras ao chafurdar na corrupção. Essas decisões equivocadas e destrutivas sempre me intrigaram. Nunca consegui compreender por que tantas pessoas jogam na lama uma reputação que consumiram anos a construir.
Nada tenho contra a riqueza construída com o suor do trabalho ou legitimada por herança, laços de matrimônio e outras formas legais. Se a pessoa acha que a acumulação de bens materiais a fará feliz, é natural que percorra esse caminho. Se procurar usar parte do dinheiro para investir em ações de solidariedade, tanto melhor. Mas o que importa aqui é analisar o estado de espírito de quem enriqueceu ilicitamente e agora vive sob a permanente tensão de ser obrigado a prestar contas à Justiça, ou pior, à Polícia Federal.
Acredito que a maior dádiva do ser humano é a paz de espírito, esse estado emocional em que tudo conspira para a serenidade, calma e harmonia interior. Não pretendo discutir os caminhos que levam à felicidade. Falta-me arte e engenho para tanto. Tampouco quero me transformar em autor de auto-ajuda. Meu objetivo é fazer uma rápida incursão na filosofia para tentar responder as perguntas aqui formuladas.
Socorro-me de Sêneca, um dos mais importantes estóicos da Antiguidade, que foi preceptor de Nero (aquele mesmo que ateou fogo em Roma). A base teórica dos seus ensinamentos consistia na idéia de que o homem deveria viver de acordo com sua natureza, adaptando-se a todas as situações com que se deparasse, mesmo as mais adversas.
Sêneca escreveu um discurso intitulado Da Tranquilidade da Alma, em que apresenta preciosos conselhos para quem deseja paz de espírito. Prega o desapego às coisas materiais em troca da riqueza interior. Para ele o melhor critério para lidar com o dinheiro consiste em não cair na pobreza nem dela afastar-se completamente. A riqueza é vista como uma permanente fonte de infortúnios e desgraças, a menos que os bens sejam usados para ajudar ao próximo: “onde houver um ser humano, aí haverá a possibilidade de se fazer o bem”.
Para ele a harmonia da alma é o bem supremo. Pregava a necessidade de uma vida retirada, consagrada às coisas do espírito, longe dos prazeres que escravizam a mente e tolhe a liberdade. Defendia que é preciso cultivar o comedimento, a refrear a luxúria, a moderar a ânsia de glória, a suavizar a ira, a olhar com simpatia a pobreza, a cultivar a frugalidade. Enfim, a felicidade consistia em uma vida virtuosa em que nossos atos refletissem fielmente os valores éticos em que acreditamos.
O iluminismo prometeu que a felicidade estaria na vitória da razão sobre a supertição. Apenas o progresso científico e material seria capaz de assegurar a tranquilidade da alma ao maior número de pessoas. O droit au bonheur (direito à felicidade) está estampado na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. A felicidade geral era a maior aspiração do Utilitarismo inglês, na pluma de Jeremy Bentham. Infelizmente as promessas não foram cumpridas e terminamos voltando à estaca zero, com as mesmas perguntas e perplexidades.
Tenho a convicção que toda a fonte da infelicidade consiste no descompasso entre as ações cotidianas e as nossas crenças mais íntimas. Isso acontece sempre quando a vida que levamos não reflete os que acreditamos. Ser infeliz é ter consciência da contradição entre o pensar e o agir, o que gera um estado de desarmonia interior profundamente nocivo à saúde. O sentimento de incongruência avança quando insistimos nos equívocos à espera que aconteça algum milagre.
É evidente que a felicidade tem o seu lado objetivo, externo. Ninguém é feliz quando está privado das condições mínimas de existência digna, quando os seus direitos fundamentais são sistematicamente violados pelo Estado ou pela sociedade. A satisfação das necessidades básicas e o exercício da cidadania são pressupostos obrigatórios para o bem-estar do corpo e da mente. Mas também não podemos afirmar que a abundância de bens materiais seja um passaporte para a felicidade. Estudos desenvolvidos por cientistas sérios provam que a maioria dos ricos entrevistados se sentem infelizes, embora não sofram privações de suas necessidades básicas.
A sociedade de consumo está calcada na superficialidade, no efêmero, na ausência de vínculos duráveis. Esse modelo estimula a inveja, a hipocrisia, o supérfluo, o imediatismo e tantos outros sentimentos negativos que envenenam a alma. A indústria famacêutica tenta explorar o vazio existencial criando a pílula da felicidade, apontada como a descoberta do século. Muitos escolhem o caminho do crime como o atalho para a construção de riquezas monumentais. Mas a verdadeira felicidade só é possível como experiência subjetiva a partir da consciência de que os nossos atos refletem precisamente o que acreditamos, as nossas mais profundas e verdadeiras convicções.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SOBRE A ARTE DE FLANAR

GEORGE SARMENTO
Quando me perguntam se pratico esportes regularmente, respondo: caminhadas. Ainda criança, costumava passar as manhãs no Clube Fênix Alagoana onde jogava voleibol, futebol e outros esportes coletivos. Na rua em que morava, no bairro do Farol, havia campinhos improvisados que eram palcos dos populares “rachas” reunindo meninos da redondeza, ricos e pobres, sem discriminações. O abismo social ainda não nos tinha sido apresentado pela sociedade capitalista.

Já adulto, os amigos foram se dispersando e os encontros escassearam-se até desaparecerem completamente. Alguns mergulharam nos intermináveis compromissos do casamento, outros engordaram, muitos sucumbiram ao sedentarismo, sem falar daqueles que simplesmente sumiram sem deixar vestígios de suas histórias de vida.

Foi então que comecei a praticar esportes individuais, sobretudo caminhadas diárias à beira mar. Nunca fui muito resistente a corridas, embora hoje tenha mais fôlego do que antes – o que para mim é mais um mistério insondável da existência humana. Eu tinha 24 anos, era promotor de justiça e havia construído um simpático chalé na praia de Guaxuma. Estava em pleno gozo das prerrogativas que a liberdade e a independência financeira podiam propiciar a uma pessoa de minha idade. E adorava caminhar... Pés descalços na areia macia, vento acariciando os cabelos e a contemplação da paisagem marinha.

Nunca caminhei para emagrecer, tonificar os músculos, fortalecer as funções cardíacas ou aumentar os meus dias de vida no Planeta Terra. As caminhadas serviram muito mais para exercitar o cérebro do que o corpo. As melhores idéias que tive se revelaram no curso de uma boa caminhada. A solução de muitos problemas existenciais, profissionais e financeiros aconteceu nas mesmas circunstâncias. São momentos mágicos em que entramos em perfeita sintonia com a natureza.

Retifico o que disse acima. Andar não é um esporte, mas um estilo de vida. Tem gente que anda para não ter um enfarte, para se entorpecer de endorfina ou para conter a agressividade. O que faço é diferente. Aproxima-se muito do que denominamos flanar, isto é, caminhar sozinho, sem rumo, observando calmamente a paisagem urbana ou rural (no meu caso, marinha), com a mente livre e o corpo relaxado.

O flâneur foi eternizado pelo poeta francês Charles Baudelaire no ensaio intitulado O Pintor da Vida Moderna, publicado no Século XIX. Personagem tipicamente parisiense, o flâneur é descrito como um caminhante anônimo que observa apaixonadamente o espetáculo da vida, que recolhe impressões do cotidiano e as eterniza no papel quando ainda se encontram bem vivas em sua memória. Graças a ele, foram criados os bulevares, os jardins, os passeios públicos, lugares onde a paisagem “feita de gente viva” se mistura ao esplendor das árvores e flores. Mesmo no Brasil contemporâneo, áreas urbanas são especialmente projetadas para os praticantes de caminhadas. São espaços frequentados por pessoas de todas as idades, com os mais diversos interesses.

A França produziu flâneurs como Diderot, Voltaire e Balzac, escritor que recolhia das ruas a maioria dos personagens de seus romances e conseguiu traçar um dos mais fiéis retratos da sociedade de sua época. Recentemente li Os Devaneios de um Caminhante Solitário, o último livro escrito por Jean-Jacques Rousseau. Seu objetivo era descrever o estado habitual da alma durante as caminhadas solitárias pelos arredores de Paris. O método é simples: manter a mente livre por inteiro para que as idéias e devaneios sigam suas inclinações, sem resistência e sem dificuldade.

O filósofo chegou a declarar que “essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que eu sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distração, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis”. A obra de Rousseau inaugura uma nova estética do caminhar como autoconhecimento, sendo precursora de peregrinações como o Caminho de Compostela e a escalada de Machu Picchu.

Em seu livro Meditar Caminhando, Thich Nhat Hahn, um monge vietinamita exilado na França, também fala dos benefícios psíquicos e físicos das caminhadas lentas, contemplativas, plenas de pensamentos positivos e exercícios respiratórios. Já testemunhei seguidores do líder budista aplicar suas técnicas em passeios pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com resultados maravilhosos para a saúde.

Vivemos num mundo dominado pelo pragmatismo. As pessoas estão ávidas para consumir poções mágicas de vitalidade. Prolongar a juventude, manter-se atraente, gozar de saúde são aspirações legítimas e podem ser perseguidas com avidez por aqueles que aspiram melhorias em sua qualidade de vida. Pergunto: para que as esteiras mecânicas se o mundo está ao alcance de todos? As caminhadas não são meros instrumentos de fortalecimento do corpo físico. O movimento pelo movimento de nada vale se não estimular a inteligência. A lição que nos deixa a arte de flanar é que as caminhadas são prazeres democráticos e benéficos tanto para o corpo como para a alma. E,ainda por cima, não custam nada!

COTIDIANO EM MOVIMENTO

GEORGE SARMENTO
Cotidiano, de Chico Buarque de Holanda, é um clássico da música popular brasileira que fez muito sucesso nos anos 70 pela mensagem subliminar de inconformismo com a sufocante rotina de alguns casais. A narrativa não poderia ser mais clara: “todo dia ela faz tudo sempre igual”. E por aí segue com a descrição dos atos repetitivos, previsíveis e entediantes de sua mulher. O paradoxal é que o tédio do personagem não é provocado pela indiferença da fêmea, mas por um conjunto de manifestações de afeto que ela lhe dirige, possivelmente para manter acesa a chama do amor.
Quase sempre a palavra cotidiano tem uma conotação negativa, estagnante. Geralmente é usada para descrever a acomodação das pessoas a hábitos adquiridos pela repetição mecânica ou inconsciente. Funciona como o escudo protetor daqueles que não querem deixar a zona de conforto para enfrentar os riscos de uma jornada incerta e inusitada. Representa o lado estático da existência humana, a sensação de segurança que experimentamos ao percorrer caminhos conhecidos que nos levam ao destino esperado, sem surpresas ou sobressaltos.
Há pessoas que não quebram sua rotina por nada nesse mundo. Traçam uma rota para as suas existências e se recusam a tomar atalhos, arriscar novas trilhas, mergulhar no desconhecido. Qualquer desvio é motivo para inseguranças, temores, pânico. Acreditam ser possível proteger-se das incertezas cada vez mais presentes na sociedade contemporânea, tão complexa e fluida. São vagões que jamais saem dos trilhos.
Muitas vezes é preciso que um acontecimento trágico nos desperte para a beleza da vida. Para as experiências maravilhosas que podemos experimentar se tivermos coragem de mudar de atitude, de vermos as coisas sob outra perspectiva. Somos obrigados a conviver com perdas. Essa é a lei da existência. Minha mãe partiu prematuramente aos 50 anos de idade, vítima de um derrame cerebral fulminante, deixando para trás os filhos, a música e a literatura que tanto amava. Meu pai foi arrancado da vida por um acidente automobilístico brutal, no auge de sua carreira profissional – ainda cheio de sonhos e energia. Agora mesmo meu tio Mendonça Neto luta bravamente contra um câncer com a mesma coragem com que combateu a corrupção e os desmandos de uma elite parasita que há séculos dilapida impiedosamente o Estado de Alagoas.
Nenhum desses acontecimentos poderia ser previsto por mim ou por quem quer que seja. O importante é que essas fatalidades não me tornaram um pessimista, invejoso ou descrente. Antes um otimista, como o Cândido, de Voltaire. Sou uma pessoa comum. Tenho virtudes e defeitos. Mas a cada dia reforça em mim a convicção de que é preciso evoluir moral e espiritualmente. Luto muito contra a dificuldade de dizer não, o injustificado sentimento de culpa e o altruismo exagerado que insiste em reconhecer o direito dos outros em detrimento dos meus. Enfim, nada que não possa ser superado através de reflexões racionais e objetivas.
Há pessoas que simplesmente são incapazes de resistir às frustrações de expectativas. Não percebem que a vida tem várias portas e muitas delas podem nos trazer felicidade. Simplesmente não sabem lidar com a transitoriedade das coisas. Apegam-se a ilusões como o poder, a bajulação, os bens materiais, a notoriedade, mas não se preparam para as adversidades que todas as mudanças proporcionam. Não sabem enfrentar o ostracismo, a solidão, o esquecimento e a ingratidão. Fujo desse estigma e me recuso a assumir a condição de vítima de quem quer que seja.
Em pleno século XIX, Baudelaire já afirmava que a modernidade é o transitório, o efêmero e o contigente. Nada é permanente, sólido, imutável. A vida não pode se cristalizar em hábitos que produzem a falsa sensação de segurança. As nossas certezas viraram pó. O que hoje é novidade, amanhã será obsoleto. Os castelos inespugnáveis podem se transformar num amontoado de grãos de areia.
Eis o que eu queria dizer: O COTIDIANO TEM DE ESTAR EM PERMANENTE MOVIMENTO! Nada impede que a rotina modorrenta possa se transformar na exploração do novo, do desconhecido e do belo. Como adotar um novo paradigma para as nossas vidas? Uma amiga muito querida costuma dizer que “a criatividade é infinita”. Ela tem razão. Não há respostas prontas. Cada um tem o seu ritmo e intuição, a voz interior que insiste em nos lançar no labirinto desse mistério que se chama vida.
Feliz 2010!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ENTREVISTA IMAGINÁRIA COM OSCAR WILDE


GEORGE SARMENTO

Desembarco na Londres vitoriana sob o denso fog que envolve a cidade. As ruas estreitas estão vaporosas, lúgubres e cobertas de neblina. Homens elegantes de fraque e cartola passam indiferentes pelas calçadas com suas bengalas de cabo em madrepérola.
Aquela noite fria era um convite ao mistério e à sedução. Nada melhor do que entrevistar um dos maiores gênios da literatura inglesa: Oscar Wilde. Nosso encontro imaginário estava marcado para um pub perto do Convent Garden, frequentado por notórios dandys, intelectuais atormentados e vedetes do teatro de revista. O assunto não poderia ser outro: o futuro do casamento na sociedade moderna.
O autor de O Retrato de Dorian Gray está sentado numa confortável poltrona de couro, bebe uma dose de gin com água tônica e observa atentamente as comédia humana que se desenrola ao seu redor. É um crítico impiedoso da sociedade londrina do século XIX. Fiz questão de preparar-lhe uma entrevista no modelo ping-pong:
1. Pergunta - O homem pode ser feliz no casamento?
Resposta - As mulheres estragam qualquer caso de amor com o seu desejo de perpetuá-lo eternamente. Que desgraça para o homem, o casamento! Ele o escraviza tanto quanto os cigarros, e custa muito mais. A base lógica do casamento é o recíproco mal-entendido.
2. Pergunta: Os homens sonham em encontrar o verdadeiro amor de suas vidas?
Reposta: Os homens sempre desejam ser o primeiro amor de uma mulher; este é o efeito de sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil. Elas desejam ser o último amor de um homem.
3. Pergunta: O que faz a mulher quando sente que o amor do marido começa a esfriar?
Resposta: Quando a mulher percebe que já não é o objeto das atenções do marido, ou se esquece de qualquer elegância, ou ostenta chapéus extremamente elegantes, pagos pelo marido da outra.
4. Pergunta: Para viver um grande amor é preciso ter muito dinheiro para gastar com o objeto do desejo?
Resposta: Só há uma classe social que aprecia o dinheiro mais do que os ricos: os pobres. O pobre não pode pensar em outra coisa. Aí está a tristeza de ser pobre.
5. Pergunta: O que o senhor acha da fidelidade conjugal?
Resposta: A fidelidade é para a vida sentimental o que a coerência é para a vida do espírito: uma pura confissão de incapacidade. Eis o paradoxo: os jovens gostariam de ser fiéis e não podem sê-lo; os velhos gostariam deser infiéis e não conseguem; não há mais nada a dizer.
6. Pergunta: Quer dizer que a infidelidade é algo positivo na vida contemporânea?
Resposta: Os amantes fiéis só conhecem o lado trivial do amor; as tragédias do amor são privilégios dos amantes infiéis.
7. Pergunta: Como você escolhe os seus amigos?
Resposta: Escolho meus amigos pela beleza, os meus conhecidos pela respeitabilidade e meus inimigos pela inteligência. Para mim a beleza é o milagre dos milagres. Somente os seres superficiais não julgam pela aparência. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível.
8. Pergunta: Você tem medo da velhice?
Resposta: Para recuperarmos a juventude só precisamos repetir as nossas loucuras do passado. E mais: a tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de ainda nos sentirmos jovens. Nunca digam que esgotaram a vida. Quando um homem diz uma coisa dessas sabemos que foi a vida a esgotá-lo.
9. Pergunta: O que deve fazer um homem virtuoso para livrar-se das tentações femininas?
Resposta: Não há outro jeito de livrar-se de uma tentação a não ser sucumbindo a ela. Se você resistir, a sua alma adoecerá desejando aquelas coisas que lhe foram negadas. Podemos resistir a tudo exceto às tentações.
10. Pergunta: É melhor estar apaixonado ou casado?
Resposta: Deveríamos estar continuamente apaixonados. É por isso que nunca deveríamos nos casar.
11. Pergunta: O senhor costuma perguntar a idade das mulheres?
Resposta: Desconfiem da mulher que confessa sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isso, poderá dizer qualquer coisa.
12. Pergunta: O senhor compreende a alma feminina?
Resposta: As mulheres foram feitas para serem amadas, e não para serem compreendidas.
13. Como conviver com a culpa?
Resposta: A vida é curta demais para que possamos carregar nas costas os sofrimentos dos outros. Cada um vive a sua vida e paga o seu preço. O que dói é que devemos pagar muitas vezes até mesmo por um só erro. De fato, pagamos as nossas culpas inúmeras vezes. No seu relacionamento com o homem o destino nunca fecha as contas.
14. O ciúme é um sentimento devastador para as mulheres?
Resposta: As mulheres feias sempre são ciumentas dos maridos; as bonitas, nunca! Não têm tempo para isso. Estão preocupadas demais com o ciúme dos maridos das outras. A dúvida e a desconfiança transformam afeição em paixão, dando origem àquelas lindas tragédias que tornam a vida linda de ser vivida. Houve uma época em que as mulheres percebiam essa verdade e os homens não, e foi então que as mulheres dominaram o mundo.
15. Pergunta: O senhor tem medo de tornar-se obsoleto?
Resposta: O maior perigo de todos é sermos excessivamente modernos. Corremos o risco de ficarmos repetinamente fora de moda.

Nota biográfica: Oscar Wilde nasceu na na cidade de Dublin em 1864. Muito jovem foi morar em Londres, onde despontou como um dos maiores escritores de língua inglesa. Fez grande sucesso como teatrólogo, contista, cronista e romancista. Proferiu conferências nos Estados Unidos sobre o dandismo, movimento estético do qual era o principal representante. Adepto da vida mundana e extravagante, escandalizou os salões londrinos pela postura libertina e irreverente. Sua fama começa a decair a partir do escandaloso romance com Lorde Alfred Douglas, que acabou lhe rendendo condenação a dois anos de trabalhos forçados. Morre em Paris completamente arruinado no ano de 1900. Está enterrado no famoso cemitério Père Lachaise, sendo visitado diariamente por legiões de fãs de todo o mundo.
Bibliografia: As respostas de Oscar Wilde foram extraídas do livro Aforismos. Clássicos Econômicos Newton, Rio de Janeiro, 1995.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

MURRO EM PONTA DE FACA

GEORGE SARMENTO
Há um ditado popular que detesto: “não se deve dar murro em ponta de faca”.
Muitas pessoas se jactam em defender essa visão derrotista como verdade absoluta. No fundo, querem mesmo é justificar sua postura resignada e passiva diante dos desafios da vida.
A humanidade está dividida em duas categorias: os céticos e os sonhadores.
Os céticos acreditam na imutabilidade das coisas, na inutilidade das ideologias, na irrelevância dos sonhos. Detestam correr riscos. Estão mais preocupados em preservar as suas zonas de conforto do que em se arriscar a perder os espaços já conquistados. São mariposas sociais, que gravitam em torno de quem tem o poder. Mas não se enganem: quando a luz apagar, batem asas e, rapidinho, procuram outro ponto luminoso.
Os sonhadores são guiados por uma luz interior fortíssima que os faz acreditar nas utopias, nas transformações sociais, na possibilidade de ser feliz. Não se deixam vencer pelo pessimismo, pelo desencanto ou pela apatia. Estão à frente de seu tempo e, muitas vezes, são incompreendidos, marginalizados ou ridicularizados pelos "idiotas da objetividade", para usar a expressão de Nelson Rodrigues.
Mas o que seria de nós se Ícaro fosse um cético? Se Thomas Edison se conformasse com a escuridão? Imaginem se os irmãos Lumière tivessem desistido de captar as imagens em tempo real! E se Pasteur pensasse que os germes eram invencíveis? Mas havia entre eles uma coisa em comum: coragem de ensanguentar as mãos nas facas da ignorância e do obscurantismo.

sábado, 6 de junho de 2009

DIA DO MEIO AMBIENTE: NÃO PLANTE UMA ÁRVORE, DENUNCIE A OMISSÃO DAS AUTORIDADES

GEORGE SARMENTO

Sexta-feira, 5 de junho de 2009. Alagoas prepara-se para comemorar o Dia do Meio Ambiente. Os principais jornais estampam imagens do governador e do prefeito de Maceió fazendo exatamente a mesma coisa: plantando mudas de árvores sob a mira de fotógrafos e câmeras de televisão. A falta de criatividade traz consigo o entediante sentimento de déjà vu.

Em tempos de indiferença e alienação política, plantar uma árvore é um feito tão revolucionário quanto a derrubada da Bastilha ou a tomada da Sierra Maestra. Se você quiser ser politicamente correto, já sabe o que fazer: passe no IBAMA, pegue uma mudinha, chame um bando de fotógrafos, cave um buraquinho no chão com ar solene e contrito. Coloque-a na vala e, com as mãos nuas, tape tudo. Pronto! Seguramente você vai ocupar um generoso espaço nos meios de comunicação local. Com sorte poderá até mesmo ser comparado a Chico Mendes, Burle Marx ou Lutzemberg, verdadeiros ícones do ecologismo brasileiro.

O movimento ambientalista passa por uma crise sem precedentes. As vozes mais respeitadas são ignoradas ou abafadas pela mídia. Os militantes mais aguerridos são estigmatizados como ecochatos, jurássicos ou bichos-grilo. Tudo fazem para desacreditar aqueles que lutam brava e intransigentemente para que as leis ambientais sejam respeitadas no país. Por outro lado, ONGs controladas por espertalhões e carreiristas recebem generosos recursos públicos para fazer de conta que estão ajudando a construir um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Isso sem falar nos partidos políticos que faturam alto com a retórica ecológica.

No início da década de 90, fui nomeado para o Núcleo de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público. Trabalhar com direito ambiental era algo exótico e completamente estranho aos embates jurídicos. Ao lado dos promotores de justiça Uayrandir Tenório e Sandra Malta, protagonizei a primeira grande ação ambiental de Alagoas. Recebi a denúncia do então presidente do Sindicato dos Químicos de Alagoas, Tácito Yuri, de que operários da ALCLOR tinham ingerido água retirada dos poços da empresa e, horas depois, foram internados com fortes dores e sintomas de intoxicação. Imediatamente iniciamos as investigações e descobrimos que um dos tanques que armazenava resíduos líquidos de organoclorados rompera-se, causando grande poluição no lençol freático do tabuleiro de Marechal Deodoro, podendo atingir a nascente do rio dos remédios e, conseqüentemente, a Lagoa Mundaú. Bastou uma breve análise laboratorial para que soubéssemos que o produto era cancerígeno e poderia ser letal em um simples copo d’água ou em um delicioso prato de sururu.

A população entrou em pânico e, por um bom tempo, deixou de consumir os frutos da lagoa. Agimos com rigor. Todas as denúncias foram apuradas. Enfrentamos seguranças armados quando decidimos entrar à força no local do crime ambiental. Em outra ocasião, quase fui às vias de fato com o presidente da empresa quando tentou desrespeitar a promotora Sandra Prata que tomava o seu depoimento no inquérito civil. Resistimos bravamente às fortíssimas ingerências políticas para nos retirar das investigações. Fomos até o fim e apresentamos os culpados à justiça. A empresa foi obrigada a fechar as suas portas e recebeu uma pesada condenação: cerca de 3 milhões de dólares para despoluir o lençol freático com o usando tecnologia de última geração.

O Caso ALCLOR foi um marco para a luta ambiental em Alagoas. A partir dele a sociedade civil sentiu-se encorajada a denunciar as grandes empresas que, até então, tinham salvo conduto para poluir. Nosso pequeno grupo também atuou em casos de desmatamento, loteamentos clandestinos, queimadas, poluição dos rios e privatização de áreas públicas. Rompemos com a concepção elitista de que a pobreza produz poluição e demonstramos que ela é produto do descaso dos governos com a execução de políticas públicas em áreas vitais como saneamento, habitação e ocupação do solo urbano.

Passados quase 20 anos vejo que pouca coisa mudou. Os problemas crônicos ficaram mais crônicos, sem qualquer perspectiva de solução. Vejam por exemplo o riacho Salgadinho. Um esgoto a céu aberto que corta a cidade de Maceió, passa na porta do Ministério Público e deságua em uma de suas principais praias, deixando atrás de si uma fedentina insuportável. A língua negra tem afugentado turistas e causado grandes prejuízos ao turismo local. Milhares de reais do Governo Federal foram desviados sem que ninguém fosse punido. Não custa nada lembrar o apoteótico banho da prefeita Kátia Born na foz do riacho, numa eloquente demonstração de desrespeito pela opinião pública.

E há outros casos paradigmáticos, como as fraudes na execução da macrodrenagem do Tabuleiro do Martins, o lixão de Maceió, a urbanização da orla lagunar. Agora mesmo os moradores da região norte estão em polvorosa com as licenças concedidas pela Prefeitura de Maceió para a construção de espigões de trinta andares à beira-mar, numa área desprovida de saneamento e urbanização. Além de pagar o IPTU mais caro da cidade, os habitantes são vítimas do total abandono por uma razão muito simples: ousaram contestar a decisão do prefeito de instalar um aterro sanitário a 300 metros da praia! Uma heresia imperdoável.

Os criminosos ambientais agem impunemente em Alagoas. Existe um verdadeiro manto de proteção estatal aos grandes empresários. Há 4 anos, o promotor Maurício Pitta denunciou criminalmente um poderoso usineiro por crime de desmatamento de considerável área da mata atlântica. O réu não foi sequer citado por não ser jamais encontrado em seu domicílio, embora seja visto diariamente circulando, lépido e fagueiro, nos restaurantes mais badalados da cidade sem ser importunado pelos diligentes oficiais de justiça.

O dia do meio ambiente foi marcado por dois episódios bem ilustrativos do péssimo nível do debate ecológico que se trava em nosso país. No plano político, empresários e ruralistas se uniram para pedir a cabeça do ministro Carlos Minc, acusado de atravancar o desenvolvimento brasileiro ao exigir o cumprimento da lei. Os detratores entendem que ele deveria fechar os olhos para a grilagem de terras públicas - talvez ocupar o seu tempo plantando mudinhas por aí. O outro foi a bizarra campanha da SOS Mata Atlântica para economizar a água doce do planeta: fazer xixi durante banho de chuveiro. Abolir a descarga seria a fórmula mágica para acabar com o problema da escassez. Falta inventar mais alguma coisa?

Comemorar o dia do meio ambiente significa romper com as soluções simplistas de nossos governantes e começar a enfrentar os grandes problemas que afetam a qualidade de vida da população. Ao invés de plantar uma mudinha ou sair com um saquinho plástico limpando a praia, devemos exercer corajosamente a cidadania sem nos deixar enganar pela propaganda oficial que procura reduzir a questão ecológica a atitudes simbólicas com o claro objetivo de encobrir o monstro da poluição que emerge do setor industrial. Que tal aproveitar a ocasião para denunciar a omissão do poder público?

domingo, 19 de abril de 2009

VALE A PENA ESTUDAR?

GEORGE SARMENTO
Semana passada, um grupo de colegas do Ministério Público conversava animadamente sobre a polêmica promoção por merecimento para o cargo de procurador de justiça, ainda sem data para chegar ao fim. Em dado momento, um dos interlocutores, com mais de 30 anos de casa e já avançado na idade, pede a palavra e afirma com a arrogância dos parvos:
- Esse pessoal que tem mestrado, doutorado e especialização pensa que é melhor que os outros. Eu mesmo só votaria em quem dá duro no trabalho, que veste a camisa da instituição. Jamais nessa gente que só pensa em dar aulas nas faculdades.
Embora eu seja um habitué dos bate-papos nos cafezinhos, não estava presente para responder na lata a essa pérola da intolerância provinciana.
Não é a primeira vez que tais assertivas chegam aos meus ouvidos pela boca de testemunhas indignadas com tamanha arrogância. Confesso que não tenho raiva dessas manifestações de raquitismo intelectual. Sei que é produto de mentes esclerosadas e corroídas pelas traças do atraso. Discutir com tais indivíduos é dar-lhes um valor que não possuem. É transformar simples grãos de areia em pedras preciosas. Além do mais, como dizia Oscar Wilde, devemos escolher nossos inimigos pela inteligência. E esse, definitivamente, não é o caso.
O curioso é que o preconceito é dirigido a uma das categorias mais injustiçadas do país: os professores. Justamente àqueles que ganham menos, sofrem com as péssimas condições de trabalho e são vítimas do desaparelhamento da educação no Brasil. Sejamos francos. As dezenas de colegas que exercem o magistério o fazem por vocação e não com o objetivo de auferir lucros, já que o salário de docente é insignificante em relação aos subsídios de promotor ou procurador de justiça. A Constituição Federal assegura o direito de ensinar em instituições de ensino superior, sem que isso configure acumulação ilícita de cargos. Além disso, a atuação na sala de aula é uma das estratégias mais eficientes para estimular vocações e atrair jovens talentosos para a carreira no Ministério Público.
Em 24 anos na instituição, jamais testemunhei um caso sequer de negligência ou desídia em razão de atividades no magistério. Ao contrário, os colegas professores são também profissionais exemplares. Ninguém é obrigado a ensinar em faculdades, fazer pós-graduação ou escrever artigos científicos. Conheço excelentes promotores de justiça que decidiram não trilhar esse caminho e são reconhecidos pela sociedade civil pelo excelente trabalho que desempenham. Mas é justo que os pós-graduados sejam execrados por terem estudado? Serão eles promotores de segunda categoria? Claro que não. Trata-se de discriminação tosca que deve ser rechaçada com veemência.
Recentemente fui convidado pelo Diretor da Escola Superior do Ministério Público, Dr. Sérgio Jucá, para proferir uma palestra sobre questões polêmicas do mandado de segurança. Contava-se nos dedos das mãos o número de promotores de justiça presentes. Pensei cá com os meus botões: é o conferencista que não presta? O tema é desinteressante? A divulgação foi insuficiente? Aí lembrei que acontecia a mesma coisa em outros eventos. Quase sempre foi preciso convocar servidores e estudantes de Direito para garantir o quorum necessário à realização dos seminários.
Por que isso acontece? Simples. A participação em cursos organizados pela ESMPAL jamais foi parâmetro de avaliação de desempenho nas promoções por merecimento. Na magistratura estadual e federal, a aprovação em cursos oficiais, inclusive os promovidos pela Escola Nacional de Magistratura é condição sine qua non para a promoção pretendida. Nunca vi um só juiz melindrado por tais exigências. Sem qualificação profissional o magistrado fica estagnado na carreira. E isso ninguém quer. Se a participação nos cursos da ESMPAL ficasse registrada nas nossas fichas funcionais para fins de promoção a situação seria diferente.
A luta de Maurício Pitta tem sensibilizado a classe pela dimensão coletiva que encarna. As manifestações de solidariedade expressam a insatisfação com os critérios adotados atualmente nas promoções por merecimento. Todos estão acompanhando atentamente o desenrolar dos acontecimentos. Tenho certeza que os integrantes do CSMP, eleitos democraticamente pela classe em eleição disputadíssima, saberão apreciar as candidaturas com impessoalidade e equilíbrio, justificando suas escolhas através de votos fundamentados. O Ministério Público só tem a ganhar com isso. Agora é só esperar para ver.
Forte abraço
George Sarmento

domingo, 1 de fevereiro de 2009

AINDA É POSSÍVEL SER DIGNO

George Sarmento


Em minha carreira de professor conheci pessoalmente muitos constitucionalistas cujos ensinamentos contribuíram, de forma decisiva, para a construção da democracia brasileira. Uns me impressionaram por sua cultura jurídica; outros me decepcionaram por se revelarem verdadeiros alpinistas do serviço público. Alguns tornaram-se cães adestrados de governantes corruptos e de grupos econômicos mal-intencionados. Poucos foram os que deram o exemplo de honradez e coragem, enfrentando déspotas com a força de seu caráter e o brilho de sua inteligência.

Quando tinha 17 anos e era estudante de direito, acompanhei a visita de Pontes de Miranda a Maceió. Ele voltava à terra natal após uma longa ausência de quase 60 anos. Era um jurista consagrado, autor de vasta obra jurídica. Respeitado em todo o mundo. Vivíamos os estertores da ditadura militar, regime sob o qual eu passara toda minha infância e adolescência. Meu pai voltou para casa muito orgulhoso com uma foto ao lado do homenageado (a foto permaneceu por muitos anos pendurada em uma parede de seu escritório jurídico).

Anos depois pude compreender a dimensão da estatura moral daquele homem. Mais do que magistrado, diplomata, e escritor, ele tinha coragem cívica de defender os direitos humanos e combater o despotismo. Ao comentar a constituição de 1967 – outorgada pelos militares –, não hesitou em afirmar que estávamos diante de um regime ilegítimo, fruto de um sórdido golpe de estado perpetrado pelas forças armadas. Sustentava que era preciso restabelecer as liberdades públicas e assegurar o funcionamento das instituições democráticas. Escrever isso naqueles anos difíceis exigia coragem e desprezo aos favores governamentais.

Em 1991, já promotor de justiça, tive a oportunidade de testemunhar o ato de coragem de outro constitucionalista nordestino: Pinto Ferreira. O governador de Alagoas encaminhara um pedido de afastamento do então Procurador-Geral de Justiça, José Carlos Malta, legitimamente eleito pela classe. O pedido era uma represália à ação penal proposta pelo chefe do Ministério Público contra um integrante da equipe do governo, envolvido em atos de violência. Alguns companheiros viajaram a Caruaru e bateram à porta do jurista pernambucano em busca de ajuda. Ele os ouviu pacientemente e redigiu um brilhante parecer mostrando as falhas do processo e defendendo a permanência no cargo. Não cobrou honorários. Agiu em defesa de princípios. Combateu a perseguição política e a retaliação, sem esperar nada em troca. Resultado: a Assembléia Legislativa arquivou o processo por absoluta falta de fundamento jurídico.

Reencontrei Pinto Ferreira em 1996, quando eu já era professor de Direito Constitucional da UFAL e cursava mestrado na UFPE. Já octogenário, aceitou o convite para ministrar um curso de teoria da constituição em Maceió. Poucas pessoas compareceram ao evento. Mas o professor não se importou. Com o entusiasmo de um adolescente, a voz firme e decidida, ocupou a tribuna e proferiu brilhantes conferências sobre os mais variados temas. Acompanhei-o durante toda a visita. Pediu-me para levá-lo a casa do professor Silvio de Macedo, seu colega da Faculdade do Recife. Lembraram os velhos tempos, felizes por reconstruir fragmentos da juventude longínqua. Riram muito das travessuras de estudantes, da boemia, da vida em fétidas pensões, das conquistas amorosas. Foi um encontro proustiano, uma verdadeira celebração à vida.

Nossa amizade se fortaleceu com o tempo. Ele foi responsável pela publicação de meu primeiro artigo científico na Revista do Instituto dos Advogados em 1995. A seu convite, escrevi outros textos para a Revista da Faculdade de Ciências Humanas de Pernambuco, instituição criada e administrada por ele. Sou testemunha de sua preocupação com a qualidade de ensino e com a formação moral dos estudantes. Nos corredores, alunos e professores não cansavam de expressar sua admiração pelo mestre.

Em 1999, Pinto Ferreira foi agraciado com o título de professor honoris causa da Universidade de Coimbra, um justo reconhecimento ao conjunto de sua obra. O evento coroaria as homenagens portuguesas aos 500 nos do descobrimento do Brasil. Fui parabenizá-lo em sua residência, um confortável casarão em estilo colonial, localizado no Bairro da Boa Vista, em Recife. Encontrei-o sentado no chão escrevendo sofregamente, enquanto seu netinho brincava ao lado alheio a tudo. Fez questão de levar-me ao seu gabinete na faculdade e me presenteou com vários livros, narrando-me com entusiasmo detalhes do cerimonial da secular universidade lusitana. Despedimo-nos com um forte abraço.

Diante da crise ética e moral em que estamos mergulhados até o gargalo, Pontes de Miranda e Pinto Ferreira são exemplos a serem seguidos pelos jovens estudantes de direito. Seus ensinamentos são uma permanente fonte de inspiração para aqueles que teimam em viver num país livre da corrupção, do clientelismo e do tráfico de influência – males que estão incrustados em todos os poderes, salvo raras e honrosas exceções. Homens como eles são um sopro de esperança. A certeza de que vale a pena trilharmos o caminho da honestidade, arregaçar as mangas e ajudar a reconduzir a nossa pátria aos verdadeiros valores republicanos.

domingo, 18 de janeiro de 2009

A VALOR DA AMIZADE


Marco Túlio Cícero foi o mais importante senador de Roma. Fervoroso defensor dos valores republicanos, era considerado uma das inteligências mais brilhantes de sua época, destacando-se na advocacia, oratória, política e filosofia. Testemunhou tempos conturbados. Enfrentou tiranos, corruptos e traidores da pior espécie. Não conhecia medo ou covardia. Viveu apaixonadamente e lutou até o fim pelo que acreditava. Enfrentou vários exílios e morreu assassinado por seus adversários políticos aos 63 anos de idade.

Em 44 a.C, Cícero, suspendeu por uns dias sua intensa atividade parlamentar para refletir sobre um dos sentimentos mais verdadeiros do ser humano: a amizade. Ele queria responder a duas perguntas: Pode-se realmente viver a vida sem ter a felicidade de encontrar num amigo os mesmos sentimentos? Que haverá de mais doce que poder falar a alguém como falarias a ti mesmo?

No pequeno tratado intitulado “Da amizade”, Cícero exalta a alegria de ter um amigo. Mesmo diante da diversidade de temperamentos, o amigo é a projeção mais fiel de nós mesmos. Contemplá-los é o mesmo que ver nossa própria imagem refletida no espelho. São os irmãos que escolhemos na estrada da vida. Assim como nós, eles jamais serão perfeitos. Mas devemos aceitá-los e amá-los com todos os seus erros, fraquezas e virtudes.

A amizade deve ser apimentada com alguns ingredientes: constância, lealdade e estabilidade. Cícero nos legou sábios conselhos para preservar e fortalecer os laços de amizade:

1º - só pedir aos amigos coisas honestas;

2º - nada pedir de vergonhoso e nada de vergonhoso conceder;

3º - fazer coisas dignas para apoiá-los sem esperar que eles nos peçam ajuda;

4º - mostrar sincero interesse pelas coisas que são importantes para eles;

5º - não hesitar jamais em ajudá-los nas adversidades, sejam quais forem as circunstâncias;

6º - ousar dar francamente a opinião sobre suas condutas e escolhas, mesmo que isso os desagrade ou aborreça.

Nesses tempos de relacionamentos superficiais, enfraquecidos por uma sociedade que privilegia muito mais o ter do que o ser, ler Cícero é uma forma de mergulhar na essência das coisas verdadeiras e extrair lições que tornarão nossa vida muito mais feliz. A receita é essa: em 2009 vamos cuidar bem dos amigos!