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domingo, 17 de novembro de 2013

VISITA ÀS UNIVERSIDADES EUROPEIAS


George Sarmento

Em 2013 fui convidado pelo professor Fábio Lins para acompanhar o grupo de alagoanos que participava da 2a Visita às Universidades Europeias, um projeto pioneiro que tem o objetivo de apresentar a estudantes, profissionais liberais, funcionários públicos e pesquisadores a efervescência da vida  em torno das mais antigas faculdades do Velho Continente. 
 
O roteiro universitário era sedutor: Coimbra, Salamanca, Montpellier e Bolonha. A caravana também passaria por outras cidades encantadoras, como Lisboa, Barcelona e Roma. A ideia era percorrer as dependências das seculares instituições, conhecer seus dirigentes e professores. Além disso, passear pelas ruas das cidades, visitar monumentos históricos, conhecer a gastronomia local.
 
No dia da partida, um lamentável incidente. Movido pelo entusiasmo da viagem, não conferi a validade do passaporte. Bagagens despachadas e de posse do meu cartão de embarque, fui informado pelos policiais federais que ele vencera naquele exato dia. Se esse detalhe não tivesse sido percebido por um agente zeloso e atento, eu sequer entraria em território português. Era inútil insistir. A situação tinha de ser encarada com objetividade. Despedi de meus companheiros e prometi encontrá-los em algum ponto do trajeto. Afinal, era um dos monitores e principal responsável pelo grupo em terras francesas.
 
Solicitei um passaporte de emergência, válido por um ano. Depois de horas de consultas aos sites de viagem, comprei um bilhete de avião para Barcelona. No dia seguinte encontraria toda delegação, que me acolheu carinhosamente, entre risos e brincadeiras. Minutos depois já estava perfeitamente integrado ao grupo e pronto para seguir viagem. Aproveito este espaço para agradecer a gentileza do professor Querino Malmann, que foi responsável pela mala desgarrada (grande e pesada) durante os dias de minha ausência.
 
As faculdades visitadas foram verdadeiros marcos do conhecimento científico ocidental - responsáveis pela formação intelectual de importantes juristas, políticos e homens de letras. Venceram as barreiras do preconceito e da intolerância  para defender valores universais que até hoje influenciam o pensamento contemporâneo.

Interior da Faculdade de Direito de Bolonha: Alma Mater Studiorum


Universidade de Bolonha: Universidade mais antiga da Europa, data de 1088. É Conhecida como a Mater Universitas (mãe das universidades). Foi lá que estudaram personagens como Dante Alighieri e Benjamin Franklin. Ainda hoje tem um excelente quadro de professores entre eles Umberto Eco e Romano Prodi.

Em 1158, os estudantes de direito foram beneficiados com a concessão de diversos privilégios pela Constituição Habita, do Imperador Frederico I. A partir daí eles passaram a se organizar em nações, que foram a semente da Universidade de Bolonha. Ainda hoje goza de grande prestígio nos meios acadêmicos e é procurada por estudantes de todos os continentes interessados em aprimorar seus conhecimentos jurídicos.



Universidade de Bolonha: Querino Malmann, George Sarmento, Thiago Bonfim e Fábio Lins
 
 
Universidade de Coimbra: fundada em 1288, sob o reinado de D. Dinis (dois anos depois confirmada pela Bula do Papa Nicolau IV), formava professores que poderiam ensinar em qualquer parte do mundo cristão. A partir do século XVI passou a formar juristas e doutrinadores extremamente respeitados em toda a Europa. Nos séculos XVIII e XIX acolheu centenas de jovens brasileiros, que voltaram ao país para formar uma elite política que seria responsável por importantes transformações sociais. Instalada em prédio de inestimável valor histórico, destaca-se pela majestosa Biblioteca Joanina.
 
Tive a honra de conhecer o reitor António Avelãs Nunes em 2002. Fomos debatedores em mesa redonda que aconteceu em congresso realizado pelo Ministério Público de Alagoas. Anos depois proferi discurso de saudação em sua posse como professor honoris causa da Universidade Federal de Alagoas. Com a criação do Mestrado em Direito da UFAL, doou centenas de livros de juristas portugueses para fortalecer nosso programa de pós-graduação. Entre os futuros doutores da Faculdade de Direito de Coimbra estavam os professores alagoanos Wlademir Lira e Thiago Bonfim.
 
Jurista de renome, crítico ferrenho do neoliberalismo, é uma das grandes amizades que fiz na vida acadêmica. Por ocasião da aposentadoria - ou jubilamento, como preferem os lusitanos), fui convidado para escrever um capítulo do livro Liber Amicorum em sua homenagem, obra coeditada pela Editora Coimbra. Durante a visita da delegação alagoana, proferiu memorável palestra sobre a história da instituição.

Suntuosa Biblioteca da Universidade de Coimbra: extraordinário acervo de livros raros
  
Universidade de Montpellier: Sua criação data de 1220, mas o reconhecimento pela Igreja Católica só aconteceria 1289, quando Nicolas IV autorizou o ensino de direito, medicina e artes. Montpellier ficou conhecida como uma cidade de refugio e exilio de intelectuais perseguidos por questões religiosas e políticas. Por muito tempo cristãos, muçulmanos e protestantes conviveram pacificamente, o que favoreceu o desenvolvimento da medicina e do direito. Já foi palco de grandes acontecimentos históricos, inclusive o fechamento de suas portas e perseguição aos professores. Augusto Comte, o mentor do positivismo, foi um dos seus alunos mais destacados.
 
No século XVIII, recebeu jovens brasileiros de formação liberal que, mais tarde, pregariam valores republicanos em sua terra natal. O chamado Grupo de Montpellier era formado por 15 alunos de medicina, que se engajaram em movimentos políticos para a libertação do Brasil do colonialismo português, a exemplo da Confederação do Equador e a Inconfidência Mineira. Movidos pelo fervor revolucionário da época e alimentados por ideias anti-monarquistas, os estudantes voltaram dispostos a conquistar a independência do país através da revolução, assim como fizeram os norte-americanos.
 
Tive a honra de atuar como professor convidado na Universidade de Montpellier I. Durante o período em que desenvolvi meus trabalhos, fiquei encantado com a vida universitária da cidade. Milhares de alunos nas ruas, atividades culturais e artísticas. Restaurantes e cafés sempre cheios.  Depois fui coordenador de convênio que a instituição celebrou com a UFAL, e indiquei alguns alunos brasileiros para cursar disciplinas na Faculdade de Direito. Ainda hoje mantenho com ela fortes laços de cooperação científica.


Universidade de Montpellier (foto do autor)
 
 Universidade de Salamanca: é considerada a mais antiga universidade da Península Ibérica e uma das mais tradicionais e renomadas da Europa. Salamanca é uma cidade efervescente, tipicamente estudantil. Fundada em 1218 pelo Rei Afonso X, foi um grande centro científico durante o período medieval. Com o descobrimento das Américas, deu extraordinária contribuição para o debate sobre os direitos dos povos indígenas, tema inédito nos meios acadêmicos da época.

A comitiva alagoana foi recebida por importantes dirigentes da instituição, que proferiram conferência magna sobre a história e os cursos ali ofertados, tudo sob a supervisão do professor Fábio Lins, que defendeu tese de doutorado na Faculdade de Direito de Salamanca.

Faço esses registros por dois motivos. O primeiro para enaltecer a grande iniciativa do colega Fábio Lins em desenvolver esse importante projeto cultural, que permitiu a todos conhecer muito da história das ciências e do ensino superior. Em segundo lugar para estimular milhares de estudantes que sonham ampliar seus horizontes em universidades estrangeiras. A inciativa distanciou-se do lugar comum de que viagens se resumem a compras e baladas, mas mostrou que também podem o ser o testemunho do longo percurso trilhado pela humanidade em busca do saber e da civilidade.
 
 
 

domingo, 7 de fevereiro de 2010

MINHA VISITA A AUGUSTE COMTE

GEORGE SARMENTO
Quando entrei na Faculdade de Direito, no final dos anos 70, tive as primeiras noções da dicotomia direito natural x direito positivo. O primeiro marcado pela inspiração divina ou pela natureza humana. O outro, fruto do pensamento científico, racional, indutivo. Representava a vitória da ciência sobre a superstição, o empirismo e o apriorismo que dominaram todo o pensamento medieval.

Os professores esforçavam-se ao máximo para demonstrar o caráter científico do Direito. Pontes de Miranda, o maior jurista brasileiro de todos os tempos, defendia vivamente a positividade e afirmava que a incidência da norma jurídica sobre o suporte fático era a origem de toda a juridicidade, que se desenvolvia num universo virtual: o mundo do direito. Exilado nos Estados Unidos, Hans Kelsen também concebia um sistema de ciência pura do direito, uma tentativa de separá-lo das demais ciências sociais.

O que os mestres não explicavam é que o normativismo nada mais era que o positivismo aplicado ao Direito. Mesmo que não queiram admitir, o positivismo de Auguste Comte (1798-1857) está na origem das chamadas ciências jurídicas. Ele foi o primeiro filósofo a defender com todas as letras que o século XIX decretara o fim do obscurantismo científico. Era chegado o momento de a sociologia atingir a sua dimensão positiva, da mesma forma que a física e as matemáticas.

Auguste Comte... Quem foi esse homem paradigmático que influenciou os proclamadores da República Brasileira? Que foi fonte de inspiração para os grandes juristas nacionais do começo do século 20? Mesmo tendo lido os seus textos mais conhecidos, resolvi visitar seu apartamento parisiense a fim de conhecer melhor o seu universo intelectual.

Pego o metrô e desço na estação Odeon, em pleno Quartier Latin, a fim de visitar o imóvel onde o filósofo viveu os últimos 16 anos de sua vida. Fica num prédio construído no século 18 e o apartamento jamais foi ocupado por outros moradores desde a morte de Comte. Seus discípulos não permitiriam tal afronta ao monstro sagrado.

A primeira surpresa que tive, foi saber que o imóvel foi totalmente restaurado em 1960, a expensas de Paulo Carneiro (1901-1982), um químico brasileiro, que foi também diplomata na UNESCO. Ele teve a idéia de criar um museu e preservar todos os objetos pessoais do filósofo, inclusive a biblioteca, a mesa de trabalho e todo o mobiliário original.

Localizado na Rue Monsieur Le Prince, 10, o apartamento também abriga a Associação Maison d’Auguste Comte, criada em 1954. Além da visita ao museu, ela possui um vastíssimo acervo cultural e bibliográfico. São obras raras escritas por seus discípulos, teses de doutorado, biografias e toda a correspondência que ele mantinha com os intelectuais da época. Também fica claro que seu sistema filosófico exerceu forte influência sobre as gerações que se seguiram, a exemplo de Émile Durkheim, Stuart Mill, Littreé e, até mesmo sobre Kropotkine – o grande anarquista russo.

Ao tocar a campainha, a porta abriu automaticamente. Notei que o funcionário ficou surpreso. Era um jovem doutorando de filosofia, às vésperas de defender sua tese na Sorbonne. Nada a ver com o positivismo. Talvez estivesse no emprego apenas para pagar seus estudos. Disse-me que há mais de um mês o espaço não era visitado por ninguém, mesmo sendo o único museu de Paris consagrado a um filósofo francês. Nem mesmo Descartes recebeu tal honraria, comentou. O fato é que, durante 2008, apenas 685 pessoas passaram por ali, contando os grupos e eventos públicos. Mas, nos últimos anos, o número baixou significativamente.

Além disso, poucos livros foram publicados sobre a vida e obra de Comte. Seu pensamento não resistiu à pós-modernidade. Nesses tempos de neoconstitucionalismo, poucos tem coragem de se dizerem positivistas por medo de serem tachados de conservadores ou retrógrados. A cada dia a retórica jurídica ganha mais espaço na vida judiciária, e o discurso científico-positivista tem sido substituído pela hermenêutica concretizadora dos direitos fundamentais no Brasil.

Nascido em Montpellier, Comte desenvolveu sua formação acadêmica na renomada Escola Politécnica de Paris, onde adquiriu sólida formação científica. A partir de 1817 começa a construir os postulados de sua filosofia positiva. Cria o vocábulo sociologia e publica em 1821 a obra Trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade”. Casa-se com Caroline Massin, com quem tem uma relação tumultuada e infeliz. Em 1826 é vítima de uma crise de loucura e é internado na Clínica do Dr. Esquirol. Tenta o suicídio, mas consegue se reequilibrar.

Nos anos seguintes retoma os seus cursos de filosofia, atraindo grande número de discípulos. Em 1842, publica seu Curso de Filosofia Positiva, obra que tem repercussão mundial, colocando-o no epicentro dos grandes pensadores do Século 19.

Sua vida sofre grande mudança quando conhece a jovem Clotilde de Vaux em 1845. Já separado de sua primeira esposa, Comte se vê perdidamente apaixonado pela jovem discípula. A perplexidade desse sentimento na maturidade deve-se ao fato de o filósofo não acreditar que a afetividade seja apreendida pela ciência. Procura na religiosidade as respostas para suas inquietações. Embora o romance só tenha durado um ano – sua musa morre de tuberculose –, Conte se mantém fiel a esse amor até o fim de sua vida.

Cria a Religião da Humanidade, engaja-se em movimentos sociais de defesa do proletariado. Institui a Sociedade Positivista para a educação dos povos. O positivismo ganha uma dimensão política na medida em que se propõe a restruturar a sociedade, resgatando-a do caos em que se encontrava mergulhada. A ciência e o progresso seriam os grandes motores de transformação. Sua militância política incomoda Napoleão III, que o destitui de sua cátedra da Escola Politécnica em 1854.

A visita ao apartamento de Comte revela algumas características de sua personalidade. Ele só escrevia diante do espelho, pois tinha a necessidade de ter contato permanente com sua própria imagem. Ele também criou uma biblioteca básica do proletariado, composta porexatamente150 livros, considerados básicos para a instrução pública. A cadeira utilizada por Clotilde encontra-se no mesmo lugar de costume, sem qualquer tipo de restauração – já que seus seguidores acreditam na dimensão divina de seu amor pela jovem francesa.

A obra de Comte teve enorme repercussão no Brasil. No Rio de Janeiro foi construída uma Igreja Positivista, onde uns poucos fiéis ainda cumprem a liturgia deixada por seu mentor. O filósofo morreu em seu leito, cercado de discípulos, deixando um grande legado para a humanidade. Os seus restos mortais repousam no Cemitério Père Lachaise. Ao deixar o apartamento, não pude deixar de notar a bandeira brasileira, que ostenta uma das mensagens do mestre de Montpellier: ordem e progresso.

domingo, 22 de março de 2009

ROTEIRO SENTIMENTAL DA CIDADE DE PENEDO

GEORGE SARMENTO

Da varanda do hotel contemplo a placidez do Velho Chico. O vento quente, seco, voraz, afogueia o espírito e atiça a fome. Um bando de garças corta o verde-esmeralda, enquanto os barcos preguiçosamente singram as águas cálidas e silenciosas. Contemplo a bela paisagem através das torres da Igreja Nossa Senhora das Correntes, construída no século XVIII por uma família simpatizante da causa abolicionista, e que hoje é uma jóia do barroco colonial.

Que rio democrático, o São Francisco! Acolhe a todos sem distinção – a imponente balsa da Empresa Fluvial Tupan que faz a travessia para Neópolis, em Sergipe; os barcos coloridos, que levam os passageiros para cidades ribeirinhas em troca de uns poucos reais; as prosaicas canoas de pesca, típicas da região, conduzidas por orgulhosos e destemidos remadores. Suas margens generosas abrigam delicadamente os casais apaixonados que se beijam sob o sol a pino, bêbados que fazem discursos inflamados contra inimigos imaginários, comerciantes anônimos que, aos gritos, tentam atrair os poucos clientes que se aventuram a sair de casa naquela hora do dia.

Em meus devaneios, fico imaginando a chegada de Duarte Coelho, em 1522, para fundar uma povoação que lhe assegurasse os domínios de sua capitania hereditária contra os corsários franceses que infestavam a região em busca do precioso pau-brasil. Olho para frente e chego ao ano de 1637. Vejo os holandeses invadirem a vila, derrubarem as resistências militares e construírem um inexpugnável forte no alto do rochedo, de onde se tinha uma vista inebriante. Conta-se que Maurício de Nassau morou ali por algum tempo só voltando para Olinda em razão do impaludismo que lhe minava a saúde. Ainda hoje, arqueólogos de diversas universidades brasileiras tentam encontrar as fundações do famoso forte, provavelmente fincadas abaixo dos prédios públicos e casarões aristocráticos que circundam a prefeitura da cidade.

A procura do legado holandês me faz lembrar um episódio familiar, narrado por parentes idosos, que mexeu muito com minha imaginação infantil. Na década de 30, meu avô paterno era um rico fazendeiro lá para as bandas de União dos Palmares. Um belo dia, uns gringos chegaram em suas terras com mapas, aparelhos de prospecção e uma conversa bonita. Disseram-lhe que holandeses em fuga haviam enterrado um baú contendo milhares de florins de ouro. Se os cálculos estivessem certos, o tesouro seria encontrado e ele ficaria com a metade da fortuna. Dinheiro suficiente para cinco gerações viverem confortavelmente. Desviaram o curso do rio e iniciaram as escavações. Os jornais deram grande destaque ao inusitado acontecimento. Os coronéis da região passavam os dias acompanhando os trabalhos na esperança de testemunhar a grande descoberta. Meu avô, por sua vez, embriagado com a repentina notoriedade, começou a gastar por conta. Contraiu empréstimos bancários, contratou os melhores alfaiates, reformou a casa-grande.

Numa madrugada chuvosa, a barragem cedeu e o rio retomou seu curso. Foi nessa fatídica noite que ele ficou sabendo que os gringos desapareceram sem deixar rastros, a não ser suas sementes no ventre de duas cablocas do engenho. Completamente falido e alvo de comentários jocosos, mergulhou em profunda depressão, da qual jamais se recuperou. Resultado: fiquei privado para sempre das preciosas moedas de ouro que passariam para mim como quinhão hereditário. Até hoje fico a me perguntar se os florins foram encontrados pelos espertalhões ou se tudo não passou de uma aventura malograda de exploradores inexperientes.

O fim de tarde se aproxima. Como é lindo o pôr do sol e o reflexo dos seus raios tingindo as águas do rio de tons avermelhados! Estou em Penedo na condição de padrinho da primeira turma de bacharéis em Direito da Fundação Raimundo Marinho. Fui um dos responsáveis pela autorização do curso e pela implantação do escritório de prática jurídica, que presta assistência gratuita à população carente. Isso me valeu o convite e o honroso título honorífico. A cerimônia acontece no Teatro 7 de setembro, projetado pelo arquiteto Luiz Lucariny e construído em 1884. O teatro não é grande. Mas é aconchegante, charmoso e está em bom estado de conservação. Perfeito para uma noite de gala.

Penedo é uma cidade de muitos encantos. Os monumentos devem ser visitados sem pressa. Vale a pena conhecer o oratório da forca, construído em 1769 para abrigar os condenados na última noite de suas vidas. Ali o escravo fujão, o ladrão de gado ou o homicida ficavam em oração à espera do enforcamento, repetindo desconhecidas palavras em latim extraídas do breviário de um jesuíta piedoso . Pediam perdão pelos pecados não cometidos, pela vida miserável que levaram, pela liberdade que lhes foi negada, pela viúva e filhos que ficariam desamparados.

Em frente fica a Casa da Aposentadoria, um suntuoso prédio construído por José de Mendonça Matos Moreira, em 1781, para abrigar os ouvidores-gerais em visita à cidade. No andar térreo funcionou uma cadeia onde os réus ficavam apinhados à espera de julgamento. O Ouvidor Mendonça é um ancestral longínquo sem o apetite sexual do qual eu não estaria escrevendo essa crônica. Além de ocupar o mais alto cargo da magistratura em Alagoas - representava a justiça real -, foi autor do principal inventário sobre as matas da província, texto que, ainda hoje, é referência para pesquisadores de todo o mundo.

Entre tantas coisas boas de se ver em Penedo está o Convento dos Franciscanos e a Igreja Nossa Senhora dos Anjos, construídos no mais puro estilo barroco e rococó. 2009 é um ano especial para a Ordem, que comemora 350 anos de presença na cidade. A exposição de cartazes descreve a trajetória dos frades na evangelização dos fiéis, na formação de sacerdotes e na pregação dos ensinamentos de Francisco de Assis. Passear pelos corredores do convento é voltar no tempo e penetrar nos mistérios da vida monástica dedicada à contemplação e à caridade. As paredes já acolheram as vítimas da cólera de 1854 e os desabrigados da grande enchente de 1919. Já foram escola e até prisão. Até mesmo o Imperador D. Pedro II assistiu a Te-Deum celebrado em sua homenagem.

A gastronomia é outra grande atração de Penedo. Quando a fome bate, nada melhor do que correr para o Bar do Jorjão para comer uma boa pituzada ao coco. O proprietário nos recebe com um sorriso franco e nos oferece o que há de melhor em sua casa. Coloca uma mesa na calçada, de frente para a Igreja Nossa Senhora dos Rosários dos Negros, e nos serve um verdadeiro banquete. Também há outros restaurantes interessantes como a Rocheira, cujo plat de résistance é o jacaré ensopado, ou o Forte Maurício de Nassau, que oferece uma esplêndida vista do Rio São Francisco e um cardápio de excelente qualidade.

Se você chega a Penedo com o espírito contemplativo, com o desejo de conhecer a essência do seu povo e a força de sua história, não vai se arrepender. É o lugar ideal para alegrar a alma, dar vazão aos sonhos e aproveitar o melhor da vida. O negócio é se deixar levar pelo encanto das ruas, pelo misticismo das igrejas, pela imponência dos casarões coloniais. Pouco a pouco a cidade abrirá os braços e mostrará a você os seus segredos mais íntimos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

PROFESSOR EM MONTPELLIER

George Sarmento



É impossível prever a trajetória dos livros. Eles nem sempre dormem nas estantes ou ficam esquecidos em uma caixa de papelão. Uma vez publicados, ganham vida própria, trilham caminhos misteriosos e surpreendentes. Quando escrevi Improbidade Administrativa, em 2002, não tinha a menor idéia das pessoas que iriam lê-lo ou de sua repercussão no sisudo mundo acadêmico. Preocupei-me apenas em denunciar a crescente escalada da corrupção que assola o país e os remédios mais eficazes para combatê-la.

Numa manhã de primavera, propícia para um bom mergulho nas águas cálidas de Guaxuma, recebo uma proposta inesperada: dar aulas na Universidade de Montpellier como professor convidado. O e-mail dizia que eu deveria permanecer um mês proferindo conferências no Instituto Preparatório para a Administração Geral, responsável pela formação da elite do funcionalismo público francês. O convite me pegou de surpresa. Fiquei um pouco receoso. Mas decidi aceitar o desafio, mesmo sabendo que as aulas deveriam ser ministradas em francês para estudantes de relações internacionais e aspirantes à magistratura.

O diretor do IPAG, professor Eric de Mari, havia lido o meu livro e ficara muito impressionado com as idéias expostas. Achava importante promover um debate sobre o perfil do governo Lula, sobretudo as investigações de escândalos financeiros envolvendo recursos públicos. Queria saber como funcionava o sistema brasileiro de repressão à improbidade, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.

A Universidade de Montpellier é uma das mais antigas da Europa. Fundada em 1220, é contemporânea de outras grandes universidades como Salamanca, Bolonha, Sorbonne, Oxford e Cambridge. Por seus corredores passaram intelectuais célebres, entre eles Augusto Comte (1798-1857), estudante de medicina que ficaria mundialmente conhecido como o criador do positivismo e da sociologia.

No século XIX, a Faculdade de Direito abrigou estudantes brasileiros que, inspirados pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, lutavam pelo fim da escravatura e pela proclamação da república. Ao contrário de Coimbra, Montpellier era o palco ideal para discutir as idéias liberais que iriam provocar grandes transformações no cenário político nacional.

Ao desembarcar em Montpellier, eu estava exultante de alegria. O livro atravessara as fronteiras do país e minhas idéias seriam expostas em uma das mais importantes universidades européias. Também me chamava a atenção o interesse que o Brasil despertava entre estudantes e professores. A França estava muito sensível ao fato de um operário, militante do movimento sindical, ter sido reeleito presidente do maior e mais rico país da América Latina.

Montpellier foi fundada no Século X graças ao movimentado comércio de especiarias com o Oriente Médio. Foi completamente devastada pelas lutas religiosas do Século XVI. Sobreviveu a tudo e hoje é a capital da Região Languedoc-Roussillon. É famosa pela efervescência da vida universitária e pela política de integração dos estrangeiros à cultura francesa.

É uma cidade tipicamente estudantil, onde se respira cultura. Suas ruas estão sempre apinhadas de jovens estudantes com suas mochilas nas costas e os olhos cheios de esperança. As livrarias, repletas de leitores ávidos por novidades. Artistas populares atraem multidões com seus animados espetáculos de música, malabarismo e teatro.

A universidade me instalou num simpático apartamento na Rue Baudin, a poucos metros do principal ponto de encontro da cidade: a Place de la Comédie, que abriga o imponente Teatro da Ópera e é cercada por cafés, cinemas, restaurantes e lojas. O que chama mais a atenção é a Fonte das Três Graças, uma alusão às míticas aias de Afrodite – a deusa do amor e da beleza. Também conhecidas como cárites, elas animavam os banquetes, envolvendo os convidados num clima de magia e sedução.

Nas faculdades medievais elas eram a encarnação do trivium: gramática retórica e lógica, artes sem as quais era impossível o exercício da cidadania. Foram imortalizadas por pintores famosos como Botticelli e Rubens. Hoje as três graças representam o savoir-vivre – a fruição das artes, da música e dos prazeres. Na praça elas estão sensualmente abraçadas numa bela escultura que é palco de encontros apaixonados e de eternas juras de amor.

Basta caminhar um pouco mais para, em alguns minutos, avistar o Corum, que é um gigantesco centro de convenções onde acontecem shows, congressos e exposições. Também impressiona o Antigone, um bairro projetado por Ricardo Boffil, construído no estilo neo-clássico entre 1977 e 2000, que abriga residências, lojas e escritórios luxuosos.

Nas tardes ensolaradas os restaurantes a céu aberto são invadidos por animados grupos, que cantam, recitam poesias e falam em voz alta. Nesses momentos é possível sentir a pulsação de uma cidade que celebra diariamente a vida.

Indicaram-me um dos anfiteatros da Faculdade de Direito para a primeira conferência. Os alunos eram candidatos à Escola de Magistratura. Preparavam-se para o difícil concurso público que mudaria para sempre suas vidas.

Não tinha ninguém para me apresentar. Apenas um cartaz na porta indicava que haveria uma exposição de direito comparado animada por um professor brasileiro. Meu nome estava estampado em letras garrafais. Havia alguns jovens sentados nos bancos do corredor, com os quais entabulei uma conversa a fim de tomar maiores informações. Minutos depois entrei no anfiteatro. Era a hora da verdade.

Respirei fundo e tomei assento na tribuna sem saber exatamente por onde iria começar. Sentados nas poltronas, os alunos me olhavam com certa curiosidade. Afinal de contas nunca tinham tido um professor brasileiro e ignoravam completamente o meu idioma. Arrumei os papeis na mesa enquanto se instalava um silêncio absoluto. Deixei de lado as formalidades e fiz uma auto-apresentação, falando um pouco da minha trajetória profissional e do flagelo que a corrupção espalhava nos países em desenvolvimento. Durante duas horas expus o tema e respondi perguntas da platéia. Os debates foram muito acirrados e enriquecidos com relatos de escândalos ocorridos na França e em outros países europeus. Ao final, a representante da turma, uma loira de olhos verdes, pediu a palavra para agradecer minha presença e dizer que tinha sido uma tarde muito produtiva. Fiquei feliz com o elogio e conclui que a barreira da língua não pode ser obstáculo para o encontro de culturas.

No dia seguinte enfrentei a turma de relações internacionais. O grupo preparava-se para a carreira diplomática e estava interessado em discutir o papel do Brasil na América Latina. Nessa ocasião estava acompanhado do professor Regis Marchiaro, que seria o mediador dos debates. Para descontrair, perguntei aos alunos com que país a França tinha a maior fronteira. Hesitação geral. Com o Brasil, respondi. E falei da Guiana Francesa, território ultramarinho localizado na América do Sul. Pouco a pouco o clima ficou descontraído e pude analisar os princípios constitucionais que regem o Brasil na condução da política internacional.

As semanas seguintes transcorreram muito bem. Os alunos estavam motivados e alguns mostravam sincero interesse em visitar o Brasil. Outros queriam fazer intercâmbio com estudantes brasileiros. Eu estava mais familiarizado com a cidade e flanava horas a fio pelas estreitas ruas medievais. À noite jantava em simpáticos restaurantes, onde era possível apreciar a boa cozinha mediterânea acompanhada de um bom vinho do Pays d’Oc.

Na última semana fui visitar o criminalista Edilson Mougenot na cidade de Aix-en-Provence. Eu o havia conhecido dias antes de partir para a França. Em 2007, ele fora convidado para julgar a dissertação defendida pelo advogado Welton Roberto, de quem eu era orientador. Contou-me, na ocasião, que estava de partida para ministrar aulas de direito penal na Universidade Paul Cézanne no mesmo período da minha missão.

Como as cidades eram próximas, combinamos de nos encontrar. Tomei a iniciativa da visita. Edilson estava hospedado no apartamento do professor Jacques Borricand, diretor do Instituto de Ciências Penais e Criminologia. Na casa de seus 70 anos bem vividos, o cicerone é uma pessoa afável e extremamente envolvida com a vida acadêmica. Ainda hoje profere conferências em lugares mais inusitados como o Irã e a China. Entreguei-lhe um artigo sobre a Lei de Improbidade Administrativa e ele logo se prontificou a publicá-lo na Revista do ISPEC.

Aix-en-Provence era uma estação termal onde os romanos vinham repousar no verão. Ainda hoje é conhecida como a “cidade das mil fontes”. Paul Cézzanne é um de seus filhos mais ilustres. O pintor foi um dos principais expoentes do impressionismo francês. Seus quadros estão espalhados pelos mais importantes museus do mundo, inclusive no MASP onde está exposto “O grande pinheiro”.

No segundo dia de visita, nosso cicerone nos convidou para conhecer a Provence. Pegou-nos em seu carro e nos levou para Luberon, uma região montanhosa coberta de vinhedos, vilas pitorescas e comida regional servida ao ar livre. É o lugar perfeito para se contemplar a natureza, fazer longas caminhadas ou passear de bicicleta. Fez questão de nos levar a Lacoste, uma cidade de 400 habitantes, para visitar as ruínas do Castelo do Marquês de Sade, que ficou célebre por seus escritos eróticos em que a dor física era o principal instrumento do prazer sexual.

De volta a Montpellier era tempo de arrumar as malas. Os alunos me ofereceram uma garrafa de Bordeaux, que foi tomado no mesmo dia. Despedi-me calorosamente de toda a equipe do IPAG com a certeza de que tinha feito grandes amigos. Perambulei mais uma vez pelas vielas da cidade, revi os restaurantes preferidos, as algazarras dos estudantes, o perfume de alfazema que exalava das casas centenárias. Mais uma vez arrisquei desvendar o mistério das três graças. Conclui que estar em estado de graça significa celebrar permanentemente a vida, saber que ela é uma dádiva que não pode ser desperdiçada por atitudes mesquinhas, renúncias injustificadas ou culpas eternas.