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terça-feira, 6 de abril de 2010

CALVÁRIO DA FAMÍLIA GÓI

São Paulo. Páscoa de 2010
Direto da Cracolândia!!!
Uma família nordestina resolveu inovar nessa Páscoa.
Desejando fazer uma via crucis adaptada ao século XXI, a Família de Góis está vivendo um verdadeiro calvário dos tempos modernos.
Viajaram a São Paulo, em número de cinco, e estão revivendo o sofrimento de Cristo em versão atualizada.
A primeira Estação, do novo calvário, começa próximo à Estação da Luz, em uma pensão encravada em plena Cracolândia, onde a criativa família assiste de perto o sofrimento dos viciados cristãos e come o pão que Caifás amassou. Uma das dificuldades que se apresenta, é a de escolher uma Madalena para sua opereta, tantas são as candidatas frequentadoras da pensão. Da mesma forma, pedras abundam, no entanto, o apedrajamento que mais mata os pecadores naquele novo cenário, é feito com minúsculas pedras de Crack.
Revoltados com a agência de turismo que os colocou em tão vexatória situação os Góis reclamaram veementente, mas a moça que os atendia, antes mesmo do galo cantar, negou três vezes que tenha feito aquilo de propósito. Dirigiram-se então ao dono da referida empresa e este, cinicamente lhes disse, lavo minhas mãos, pois não participei de tal armação. Embora impossibilitada de se movimentar durante a noite devido ao desgarrado rebanho de viciados que a cerca, a nossa família tem expiado seus pecados durante o dia, conduzidos pela filha mais velha em um carro com GPS desorientado. Assim, estão pagando o dobro da kilometragem à locadora, pois cada percurso é feito duas vezes, uma indo e outra voltando, naturalmente de ré, pois devido a desorientação da condutora e do GPS, várias foram as ruas que entraram em sentido oposto ao tráfego. Ainda bem que conseguiram identificar o problema! O GPS, que lhes forneceram era da mesma marca e modelo do que foi usado pelo Patriarca Moisés para fugir do Egito com seu povo… Lembram que passaram 40 anos perdidos no deserto e, tantas foram as confusões, as revoltas e o bacanais que o Senhor se viu obrigado a intervir, editando os Dez Mandamentos ?
Devido a tais fatos, dizem as más línguas do mercado que o DETRAN de São Paulo encontra-se com metade de seus guardas no estaleiro, pois todos contraíram graves doenças respiratórias, não em razão da poluição que, neste feriado, tem sido até amena, mas sim de tanto usar seus apitos para orientar e advertir a família Gói. Não lhes encheram as CNHs de multas porque pretendem figurar na opereta como os bons Samaritanos.
O patriarca da família tem desempenhado com paciência e estoicismo o pesado fardo do papel de Cristo, o que ele credita a toda experiência adquirida na vida de seminarista.
Assim, graças a tal experiência de vida, tem sido fácil suportar todas as queixas e reclamações advindas de todos do grupo, especialmente da matriarca, que elevou seu rosário de queixumes à potência "N".
Neste sábado de aleluia, o ponto máximo da via crucis será uma visita à 25 de Março, que deverá estar lotada de vendilhões do templo, seguida de um tour à Rua Zé Paulino, onde, entre todos aqueles judeus, a família Gói espera encontrar alguns para fazer a tradicional malhação de Judas, descarregando nos usurentos mercadores, toda raiva e frustração de seu sofrimento. Porém, caso tal malhação não dê certo devido a infestação de Coreanos nos domínios judaicos, pensam em voltar à cracolândia à procura de, pelo menos, um braço de Judas; produto abundante naquelas cercanias.
Finalmente, a esperança de todos é que, após a última e frugal ceia dominical no decaido pensionato, a volta para casa, no domingo, transcorra em clima de Aleluia e a única ascenção seja tão somente do avião que os trará de volta, pois todos acham que apesar de dura, a vida aqui ainda é melhor que a monotonia da paz celestial.

Isaac Sandes - 04/04/2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

AINDA SOBRE O RELATIVISMO E UNIVERSALISMO

Recentemente, publiquei uma postagem sobre o grande debate que envolve o universalismo e subjetivismo nos direitos fundamentais, tema que tem esquentado a academia européia. Transcrevo aqui a intervenção de Luiza Amália, uma destacada aluna do curso de graduação em Direito:
Professor,
Engraçado é que ontem mesmo passei grande parte do meu tempo ocioso pensando sobre o relativismo cultural.
Ocorre que, no último domingo,dia 14, por muita insistência de um grupo de brasileiros evangélicos que vivem em Chicago, fui a um culto religioso em uma Assembléia de Deus.
Há muito, me considero "sem religião", apesar de que de forma alguma sou contrária às religiões. Acho um grande meio de organização social e de conforto espiritual (para aqueles que nasceram com o "dom" da fé no Divino).
O fato é que a pregação, de duas horas e meias contadas de relógio, era basicamente uma retórica direcionada a doação de 50 dolares mensais a um grupo de missionários da igreja que se encontram no Moçambique, "resgatando almas para Jesus".
Por mais de trinta minutos o pregador apresentou, por meio de slides, uma planilha do balanço financeiro dos últimos 12 meses com o custeio da missão, e, ao longo das duas horas restantes, tentava convencer ao público de que só Jesus salva e que quem não seguisse o escrito na Bíblia estaria fadado à eternidade no angustiante inferno.
Fiquei imaginado essas pessoas pregando isso aos miseráveis moçambicanos. O povo sofrido de Moçambique, vulnerável à fome, AIDS e mortalidade infantil altíssima, são facilmente "seduzidos" por essa falácia de salvação espiritual, e desvinculados de suas religiões tribais datada de séculos, se não de milênios.
Isso me revoltou tanto que cheguei a ver em mim um lado antropológico jamais percebido antes.
A corrente universalista do Direito, além de ter o suporte de um grupo de intelectuais super respeitados, tem um propósito mais do que justificável: uma vida digna para toda a raça humana.
As missões evangelistas sim, são altamente nocivas à manutenção da identidade cultural dos povos, pois distrincham a raíz de toda uma cultura, a religião. Ou será que é tão difícil lembrar dos jesuítas que aniquilaram incontáveis tribos nativas por toda a América nos séculos XV e XVI? Religião não é justificativa para missão. Cada povo tem a sua e tratar desse assunto é algo muito mais complexo do que pode parecer.
O Universalismo, se aplicado de forma a respeitar um mínimo da cultura de cada povo (e todo o problema consiste no estabelecimento desse mínimo), para mim parece a forma mais plausível de igualar todos os povos por meio da identidade SER HUMANO.
Terminando essa reflexão, releio o já escrito e me vejo totalmente indecisa à qual corrente sou partidária. O radicalismo, em ambas, é contaminado de erros graves. A resposta estaria num meio termo, como quase tudo na vida. O debate sobre esse tema é algo que precisa ser muito mais amadurecido.

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

O POUSO NA CHAMPS-ELYSÉES


Os brasileiros que passeiam pela elegante Avenida Champs-Elysées, em Paris, deveriam olhar com muito orgulho o prédio 114. Ali morou Santos Dumont. Mais ainda: foi também o lugar onde posou o Dirigível n. 9, sob os olhares perplexos de milhares de franceses. Além de morar no local mais nobre da cidade, o cara era ousado. Em 1903, nada de chegar em casa de nos modernos automóveis que encantavam a burguesia. Autenticidade era a palavra de ordem. Depois de sobrevoar a Cidade Luz num frágil balão, tinha mesmo que pousar na porta de casa para comemorar o feito com muito champagne.
Santos Dumont foi morar na França aos 20 anos de idade, onde seguiu estudos superiores. Sua primeira grande invenção foi o Balão Brasil, assim batizado em homenagem à terra natal. Depois vieram outros, até a construção do 14 BIS, que o celebrizou como o pai da aviação mundial.
Enquanto espero o avião que me conduzirá ao Brasil depois dessa breve temporada parisiense, penso na grande contribuição que Santos Dumont deu para a humanidade: um meio de transporte que encurta distâncias e aproxima pessoas de todos os continentes.
Visitei algumas vezes sua casa em Petrópolis. Um sobradinho acolhedor e cheio de criatividade. Uma mostra da genialidade de seu proprietário. Todos ficam impressionados com o formato da escada, o sistema de aquecimento d’água, entre outras invenções inusitadas. Pouca gente sabe, mas ele também foi o inventor do relógio de pulso, ornamento tão comum na contemporaneidade. Santos Dumont suicida-se em 1932, desgostoso por ver que os aviões que ele ajudou a construir tinham-se tornado máquinas de guerra. O golpe foi muito forte para a sua frágil saúde física e mental.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

MINHA VISITA A AUGUSTE COMTE

GEORGE SARMENTO
Quando entrei na Faculdade de Direito, no final dos anos 70, tive as primeiras noções da dicotomia direito natural x direito positivo. O primeiro marcado pela inspiração divina ou pela natureza humana. O outro, fruto do pensamento científico, racional, indutivo. Representava a vitória da ciência sobre a superstição, o empirismo e o apriorismo que dominaram todo o pensamento medieval.

Os professores esforçavam-se ao máximo para demonstrar o caráter científico do Direito. Pontes de Miranda, o maior jurista brasileiro de todos os tempos, defendia vivamente a positividade e afirmava que a incidência da norma jurídica sobre o suporte fático era a origem de toda a juridicidade, que se desenvolvia num universo virtual: o mundo do direito. Exilado nos Estados Unidos, Hans Kelsen também concebia um sistema de ciência pura do direito, uma tentativa de separá-lo das demais ciências sociais.

O que os mestres não explicavam é que o normativismo nada mais era que o positivismo aplicado ao Direito. Mesmo que não queiram admitir, o positivismo de Auguste Comte (1798-1857) está na origem das chamadas ciências jurídicas. Ele foi o primeiro filósofo a defender com todas as letras que o século XIX decretara o fim do obscurantismo científico. Era chegado o momento de a sociologia atingir a sua dimensão positiva, da mesma forma que a física e as matemáticas.

Auguste Comte... Quem foi esse homem paradigmático que influenciou os proclamadores da República Brasileira? Que foi fonte de inspiração para os grandes juristas nacionais do começo do século 20? Mesmo tendo lido os seus textos mais conhecidos, resolvi visitar seu apartamento parisiense a fim de conhecer melhor o seu universo intelectual.

Pego o metrô e desço na estação Odeon, em pleno Quartier Latin, a fim de visitar o imóvel onde o filósofo viveu os últimos 16 anos de sua vida. Fica num prédio construído no século 18 e o apartamento jamais foi ocupado por outros moradores desde a morte de Comte. Seus discípulos não permitiriam tal afronta ao monstro sagrado.

A primeira surpresa que tive, foi saber que o imóvel foi totalmente restaurado em 1960, a expensas de Paulo Carneiro (1901-1982), um químico brasileiro, que foi também diplomata na UNESCO. Ele teve a idéia de criar um museu e preservar todos os objetos pessoais do filósofo, inclusive a biblioteca, a mesa de trabalho e todo o mobiliário original.

Localizado na Rue Monsieur Le Prince, 10, o apartamento também abriga a Associação Maison d’Auguste Comte, criada em 1954. Além da visita ao museu, ela possui um vastíssimo acervo cultural e bibliográfico. São obras raras escritas por seus discípulos, teses de doutorado, biografias e toda a correspondência que ele mantinha com os intelectuais da época. Também fica claro que seu sistema filosófico exerceu forte influência sobre as gerações que se seguiram, a exemplo de Émile Durkheim, Stuart Mill, Littreé e, até mesmo sobre Kropotkine – o grande anarquista russo.

Ao tocar a campainha, a porta abriu automaticamente. Notei que o funcionário ficou surpreso. Era um jovem doutorando de filosofia, às vésperas de defender sua tese na Sorbonne. Nada a ver com o positivismo. Talvez estivesse no emprego apenas para pagar seus estudos. Disse-me que há mais de um mês o espaço não era visitado por ninguém, mesmo sendo o único museu de Paris consagrado a um filósofo francês. Nem mesmo Descartes recebeu tal honraria, comentou. O fato é que, durante 2008, apenas 685 pessoas passaram por ali, contando os grupos e eventos públicos. Mas, nos últimos anos, o número baixou significativamente.

Além disso, poucos livros foram publicados sobre a vida e obra de Comte. Seu pensamento não resistiu à pós-modernidade. Nesses tempos de neoconstitucionalismo, poucos tem coragem de se dizerem positivistas por medo de serem tachados de conservadores ou retrógrados. A cada dia a retórica jurídica ganha mais espaço na vida judiciária, e o discurso científico-positivista tem sido substituído pela hermenêutica concretizadora dos direitos fundamentais no Brasil.

Nascido em Montpellier, Comte desenvolveu sua formação acadêmica na renomada Escola Politécnica de Paris, onde adquiriu sólida formação científica. A partir de 1817 começa a construir os postulados de sua filosofia positiva. Cria o vocábulo sociologia e publica em 1821 a obra “Trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade”. Casa-se com Caroline Massin, com quem tem uma relação tumultuada e infeliz. Em 1826 é vítima de uma crise de loucura e é internado na Clínica do Dr. Esquirol. Tenta o suicídio, mas consegue se reequilibrar.

Nos anos seguintes retoma os seus cursos de filosofia, atraindo grande número de discípulos. Em 1842, publica seu Curso de Filosofia Positiva, obra que tem repercussão mundial, colocando-o no epicentro dos grandes pensadores do Século 19.

Sua vida sofre grande mudança quando conhece a jovem Clotilde de Vaux em 1845. Já separado de sua primeira esposa, Comte se vê perdidamente apaixonado pela jovem discípula. A perplexidade desse sentimento na maturidade deve-se ao fato de o filósofo não acreditar que a afetividade seja apreendida pela ciência. Procura na religiosidade as respostas para suas inquietações. Embora o romance só tenha durado um ano – sua musa morre de tuberculose –, Conte se mantém fiel a esse amor até o fim de sua vida.

Cria a Religião da Humanidade, engaja-se em movimentos sociais de defesa do proletariado. Institui a Sociedade Positivista para a educação dos povos. O positivismo ganha uma dimensão política na medida em que se propõe a restruturar a sociedade, resgatando-a do caos em que se encontrava mergulhada. A ciência e o progresso seriam os grandes motores de transformação. Sua militância política incomoda Napoleão III, que o destitui de sua cátedra da Escola Politécnica em 1854.

A visita ao apartamento de Comte revela algumas características de sua personalidade. Ele só escrevia diante do espelho, pois tinha a necessidade de ter contato permanente com sua própria imagem. Ele também criou uma biblioteca básica do proletariado, composta porexatamente150 livros, considerados básicos para a instrução pública. A cadeira utilizada por Clotilde encontra-se no mesmo lugar de costume, sem qualquer tipo de restauração – já que seus seguidores acreditam na dimensão divina de seu amor pela jovem francesa.

A obra de Comte teve enorme repercussão no Brasil. No Rio de Janeiro foi construída uma Igreja Positivista, onde uns poucos fiéis ainda cumprem a liturgia deixada por seu mentor. O filósofo morreu em seu leito, cercado de discípulos, deixando um grande legado para a humanidade. Os seus restos mortais repousam no Cemitério Père Lachaise. Ao deixar o apartamento, não pude deixar de notar a bandeira brasileira, que ostenta uma das mensagens do mestre de Montpellier: ordem e progresso.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ESTUDOS BRASILEIROS

GEORGE SARMENTO
Aproveitei meus últimos dias de férias para participar de um ciclo de conferências promovido pelo Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain, vinculado à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. Uma excelente oportunidade para atualizar a bibliografia e entrar em contato com grupos de pesquisas avançadas.

Criado em 1985, o CRBC tem apoiado pesquisas sócio-culturais, econômicas e políticas sobre o Brasil, muitas das quais redigidas em língua francesa. Dirigido por Afrânio Garcia e Ignacy Sachs, todos os anos edita os Cahiers du Brésil Contemporain, uma revista de grande qualidade consagrada a temas específicos e com abordagem interdisciplinar.

Entre as atividades desenvolvidas, ressalto as reuniões do grupo de reflexão coordenado por Marion Aubreé, mas que também conta com a presença de outros membros do CRBC. Os convidados são intelectuais brasileiros e estrangeiros brasilianistas que abordam temas de grande relevância no campo das ciências sociais.

O professor Ignacy Sachs é um dos principais teóricos do desenvolvimento sustentável, com vários livros publicados no Brasil. É professor honoris causa da UFAL, consultor do Governo de Alagoas na área do planejamento, além de orientador de várias teses de doutorado na área de meio ambiente e desenvolvimento.

Recentemente, a EDUFAL publicou o excelente livro da antropóloga francesa Marion Aubrée, escrito em co-autoria com François Laplantini. A obra investiga a influência do espiritismo kardecista no Brasil e seus principais efeitos sobre a religiosidade de nosso povo. Escrita originalmente em francês, chega ao país com mais de 10 anos de atraso. O texto impressiona por sua originalidade e lucidez. Pesquisadora das religiões afro-brasileiras, a autora acaba de publicar um estudo antropológico sobre o mito Yemanjá.

Para finalizar essa notícia, ressalto o excelente trabalho desenvolvido pelo professor Afrânio Garcia à frente do CRBC, sempre preocupado em promover debates sobre sobre o desenvolvimento brasileiro, recebendo pesquisadores de várias orientações teóricas. Antropólogo reconhecido internacionalmente, neste ano tem animado seminários com a presença de grandes intelectuais como Cristovam Buarque, Bresser Pereira, Renato Ortiz, entre outros.

UMAS E OUTRAS

REPÚBLICA LAICA

Há poucos dias, li uma matéria na imprensa brasileira sobre a pretensão de certo procurador da república em retirar das repartições públicas todos os símbolos religiosos. Sustenta que o Estado laico não interfere na fé dos cidadãos e por isso não pode estimular essa ou aquela religião. Dessa forma defende a retirada de imagens, crucifixos, orações ou textos que invoquem profissão de fé.

Na França esse debate se arrasta há anos. Ganhou destaque na imprensa com “Lei da Burca”, que proíbe os estudantes das escolas públicas de portar símbolos ostensivos de suas religiões durantes as atividades educacionais. Meses atrás, o Governo constituiu comissão de parlamentares de direita e de esquerda para elaborar um projeto de lei que proíba o ingresso de mulheres nos transportes públicos portando a burcas que cobram todo o rosto. Os argumentos são os mesmos: defesa da laicidade, dignidade feminina, vinculação a grupos sectários e, até mesmo, segurança nacional contra o terrorismo.

A repercussão foi tão negativa que a Comissão perdeu toda sua legitimidade. Sob o pretexto de defender os direitos humanos, a tentativa de repressão terminou produzindo efeito contrário. A proibição tem sido interpretada como mais uma intrusão do Estado na liberdade religiosa e na vida privada das mulheres muçulmanas. E o pior é que o problema atinge apenas algumas centenas de mulheres, ainda muito arraigadas a uma obtusa interpretação Alcorão. Muito barulho por nada...

PÓ E FUMO: A EPIDEMIA CRESCE

Se há uma coisa de que devemos nos orgulhar é da campanha brasileira antitabagista. Os resultados foram muito bons para a saúde dos brasileiros, vítimas potenciais do câncer de pulmão. Houve uma efetiva diminuição do consumo de cigarros no país. A proibição de fumar em lugares fechados como restaurantes, shoppings, escolas, aliada a uma competente campanha na mídia, foi determinante inibir o vício.

Na França, existe a mesma proibição. Mas, ao contrário do Brasil, o consumo de cigarros ainda é muito alto. Milhões de franceses são fumantes compulsivos. Não se contentam com um ou dois cigarros. Basta um grupinho de amigos sentar à mesa que logo o cinzeiro fica cheio de cinzas e “tóias”. É muito comum encontrar idosos nas ruas com visíveis sinais de enfisema pulmonar, fruto de décadas e décadas de vício. Outro dia vi dois jovens beijando-se apaixonadamente. Depois entreabriram as bocas de onde saiu a fumaça sorvida instantes antes do caloroso amplexo. Um horror.

As portas dos cinemas, teatros e cafés estão sempre cheias. A gente pensa que não há mais lugar, que estão super lotados. Quando chega mais perto, verifica que são os fumantes que se aglomeram para satisfazer o seu mais forte desejo: um longo trago no cigarro. Mas isso não é nada diante do crescimento assustador do consumo de drogas nos últimos 10 anos. A maconha está tão banalizada entre os jovens que transformou-se numa instituição quase tão popular quanto o croissant. Em recente pesquisa, o Observatório de Drogas e Toxicomanias apontou um grande crescimento do uso de cocaína e ecstasy entre pessoas de 18 a 44 anos. As drogas ilícitas tornaram-se rotineiras e manifestam-se como símbolos do inconformismo social ou de pertença a determinadas tribos urbanas, muitas vezes confundidas com a própria família dos usuários.

Espero que o Governo brasileiro combata essa epidemia com a mesma competência com que desbancou os fabricantes de cigarro. Afinal, o comércio de cocaína, crack e maconha, além de destruírem vidas, são os grandes responsáveis pelo aumento do crime organizado no país.

DIREITOS HUMANOS PARA TODOS?

A internacionalização dos direitos humanos é um dos temas mais debatidos por aqui. A polêmica gravita em torno de duas perspectivas científicas: o universalismo e o relativismo. A primeira corrente teórica encontra nos juristas os seus maires seguidores: Kelsen, Radbruck, Pontes de Miranda, Cançado Trindade. Já o relativismo é mais forte entre os antropólogos, que temem que a universalização acabem com a diversidade dos povos, defendendo o diálogo entre direito e cultura a fimde encontrar saídas para esse dilema.

O universalismo defende, com bons argumentos, a tese de que é possível instituir um conjunto de direitos fundamentais adotados por todos os países integrantes da ONU. É a crença de que a constitucionalização dos direitos humanos contidos nos tratados internacionais promoverá a dignidade, liberdade e igualdade entre todos os seres humanos, independente dos grupos étnicos, religiosos ou linguísticos a que pertençam.

Os relativistas sustentam que não é possível forçar a globalização de direitos humanos sem levar em consideração a diversidade de costumes, práticas e culturas dos povos que habitam no Planeta. Os mais radicais defendem que essa imposição nada mais é do que uma tentativa de ocidentalização do direito, impondo a aculturação de todos os povos às suas instituições jurídicas. Será a volta do eurocentrismo jurídico?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

DICAS PARA ANDAR NO METRÔ DE PARIS

Não leves livros contigo, olha a teu redor, fala com os outros. Aprenda a conhecer as pessoas. Ninguém pode fazer isso por ti”. Esta mensagem do estadista Jean Monnet está traduzida em vários idiomas em um grande painel do restaurante Le Francilien, freqüentado basicamente por estudantes estrangeiros.

Ela deveria ser exposta nos metrôs de Paris, onde os passageiros fazem exatamente o contrário. Mal entram nos vagões, já abrem os seus livros e mergulham na leitura de uma ou duas páginas, no máximo, quase de forma maquinal. Os mais jovens sacam os seus i-phones (uma verdadeira febre urbana) e ali encontram a diversão perfeita: games, torpedos, vídeos ou música. Outros fazem questão de ficar indiferentes a tudo e a todos. Muitas vezes o silêncio chega a ser incômodo.

Se você é marinheiro de primeira viagem, deve aprender a olhar para o nada. O contato visual com um desconhecido pode ser fatal. Puxar conversa, nem pensar! Corre o risco de ser acusado de assédio ou invasão de privacidade. Eu desenvolvi a habilidade de fingir que não vejo nada e, modéstia à parte, acho que sou bastante convincente. O que eles não sabem é que minha curiosidade está à flor da pele!

Tirando as idiossincrasias (ou idiotices?), andar de metrô aqui tem as suas vantagens. Além de ser barato e rápido, a gente se desloca para qualquer parte da cidade sem gastar dinheiro com taxi. E ainda há a possibilidade de exercitar o lado voyeur sem ser notado!