segunda-feira, 9 de março de 2009

CUIDADO COM OS ESPERTALHÕES!

Recebi do amigo Andreas Krell uma denúncia que merece ser divulgada para evitar que alguns incautos que sonham com a calçada da fama caiam no "conto do vigário". Espertalhões têm criado instituições com o objetivo de distribuir prêmios internacionais de reconhecimento por relevantíssimos serviços prestados à humanidade. As vítimas são pessoas crédulas, que acreditam piamente nos bons propósitos dos vigaristas e terminam ostentando um título inexistente, que nada acrescenta aos seus curriculos vitaes. Para evitar situações constrangedoras e hilárias, repasso a notícia para que cada um tire suas próprias conclusões.


Muitos pesquisadores recebem cartas do International Biographical Institute (Cambridge, England), do American Biographical Institute (Raleigh, North Carolina) e outras organizações, as quais os informam que ganharam um prêmio de reconhecimento por seu trabalho. Essas instituições enviam comunicados para um número elevado de pessoas, prometendo aos mesmos a inclusão em uma lista que soa prestigiosa ou a entrega de um prêmio numa reunião.

São oferecidas várias categorias de reconhecimento, para atrair pessoas ingênuas, como, por exemplo, os "2000 Cientistas Líderes do Século XXI", o "Livro dos 2000 Intelectuais", os "500 Líderes de Influência", as "5000 Personalidades do Mundo", as "Grandes Mentes do Século XXI", a "Elite dos Gênios", o "Registro dos Experts Mais Respeitados do Mundo", o "Laureado Mundial do Instituto Biográfico Americano" etc.

Cada receptor de tal mensagem é "convidado" a adquirir itens que podem ser orgulhosamente expostos ou usados para dar conta da alta distinção honrosa, como uma cópia do livro (talvez em edição luxuosa de couro), uma placa ou medalha (com o nome do receptor finamente gravado) ou até uma faixa (esplendidamente bordada em filete dourado). Cada um desses sinais de reconhecimento custa acerca de 250 dólares; a alternativa do registro numa reunião pode custar o dobro. Não há dúvida que prometer este tipo de "reconhecimento" é um negócio lucrativo.

Algumas (sobretudo confiantes) pessoas na Europa e América do Norte mesmo reivindicaram o reconhecimento proporcionado por estes "prêmios" mediante inserção na sua lista de qualificações. Em algumas partes do mundo, anúncios são postos em jornais por parte dos receptores para noticiar os prêmios, um comportamento reforçado pelo fato de que lá ninguém ri deles por ter gasto dinheiro dessa maneira.

Entretanto, dá para entender o nível de triagem a que potenciais receptores são sujeitos pela resposta dada quando um hotel indiano submeteu o nome do seu cozinheiro: ele recebeu devidamente uma placa e menção por seu "Papel de Liderança na Sociedade Sul-Asiática".

(Tradução livre do artigo: Dubious awards: Sashes and such. Newsletter of the Biological Survey of Canada. Volume 26, n. 1, 2007. www.biology.ualberta.ca/bsc/news26_1/awards.htm. Acesso: mar. 2009.)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O PREÇO DA INDEPENDÊNCIA

Sou promotor de justiça há 24 anos. A consciência tranqüila e a certeza do dever cumprido são o meu patrimônio moral. Ando de cabeça erguida, sem medo ou vergonha de qualquer ato praticado no exercício de minhas funções. Sempre agi com serenidade e firmeza. Nunca persegui, transigi, beneficiei, troquei favores ou me quedei a interesses inconfessáveis de quem quer que seja.

O respeito aos direitos fundamentais e à dignidade da pessoa humana têm sido a minha bússola. Jamais coloquei o cargo a serviço de grupos políticos, chantagem ou favorecimentos pessoais. Acredito nos valores republicanos e no respeito à constituição do país. Por isso não posso aceitar práticas fascistas tão comuns nos fétidos porões do aparato estatal, sobretudo a arapongagem e a ingerência na vida privada dos cidadãos.

Decidi pagar o preço de minha independência. Já fui alvo de perseguições, canalhices, traições. Tive vitórias e amarguei derrotas. Mas nunca me senti coitadinho ou vítima das circunstâncias. Aprendi logo cedo, ainda nos bancos da faculdade, que direito é luta. Luta do bem contra o mal. Da virtude contra a corrupção. Da inteligência contra a mediocridade. A arma do jurista é a palavra, escrita ou falada. A história nos mostra que os discursos são muito mais poderosos que os canhões. Que a verdade sempre prevalece sobre a mentira. Infelizes daqueles que se iludem com a efemeridade do poder...

Sou um cidadão educado, afável, de bom trato. Diariamente recebo advogados e clientes que querem discutir detalhes de seus processos. Ouço-os com paciência e respeito. Mas não abro mão de minhas atribuições nem admito ingerências externas no meu trabalho. É inútil insistir. Não temo ameaças nem recebo recados indecorosos. Minhas manifestações nos autos são produto de intensa reflexão, equilíbrio e justiça. Expressam minhas mais sinceras convicções e crenças.

O Brasil vive uma crise de autoridade sem precedentes. Os constantes escândalos envolvendo parlamentares, governantes e funcionários do alto escalão têm minado a confiança da população nas instituições democráticas. Nessa confusão, o Ministério Público emerge como o verdadeiro defensor do povo.

É preciso que os seus membros sejam dignos da estatura do cargo, que sejam independentes e destemidos. A vaidade, prepotência e o autoritarismo de alguns são atitudes que conspiram contra os interesses maiores da sociedade. Não podemos esquecer que democracia é, antes de mais nada, o compromisso inquebrantável com a ordem constitucional e não vassalagem aos poderosos.