domingo, 2 de agosto de 2009

HISTÓRIAS QUE COLHI NAS RUAS - EPISÓDIO I


O GOLPE DO BAÚ
GEORGE SARMENTO

Olavo era um solteirão convicto. Daqueles que farejam uma enrascada a quilômetros de distância. Ao longo da vida fugira de todas as armadilhas para resgatá-lo do cômodo celibato. As moças casadoiras até que insistiram. Mas ele se mostrava inflexível às tentações carnais e ao sonho de constituir família. Chegou aos 65 anos da maneira com que havia sonhado: uma excelente aposentadoria, saúde de ferro e sem as cotidianas preocupações domésticas.
Encontrávamos com certa frequencia no Hiper Bompreço. Quase sempre ele estava na cafeteria, discutindo alegremente com os seus companheiros de “senadinho”, vocábulo aqui usado para descrever os grupos de aposentados que se reúnem diariamente em lugares estratégicos – bancas de revistas ou shoppings centers – para relembrar o passado, falar da vida alheia ou comentar as notícias do dia.
Adorava cortejar vendedoras das lojas e lanchonetes, sem jamais se deixar seduzir pelos encantos femininos ou assumir compromisso mais duradouro. Diante da mais leve ameaça de romper com sua solteirice, já pulava fora sem dar maiores explicações. Em nossas conversas, e foram muitas, ele descrevia deliciosamente os estratagemas utilizados para se safar dos compromissos matrimoniais, velados ou escancarados.
Certo dia encontro o Olavo um pouco acabrunhado, como quem está prestes a tomar uma importante decisão. Ele palitava os dentes e tinha um olhar perdido. Seu café estava frio e intocado. Perguntei o que tinha ocorrido. Ele não se fez de rogado. Pigarreou, aproximou-se do meu rosto e sussurrou:
– Rapaz, estou apaixonado! Agora sim, encontrei o amor da minha vida. Valeu a pena esperar tanto tempo. Ela é linda: 25 anos, evangélica, extremamente recatada. Fidelíssima! Moça do interior... Não cansa de dizer que me ama, que viverá sempre ao meu lado. É benzinho para cá, amorzinho para lá... Você precisa ver!
Parabenizei-o calorosamente e desejei muitas felicidades para o casal. Ele prometeu que me enviaria o convite de casamento.
Meses depois encontro o Olavo, muito alegre e sorridente ao lado dos correligionários de senado. Abro os braços e pergunto:
– Cadê o convite? Esqueceu dos amigos ou não quer gastar dinheiro com a festança?
Ele me pegou pelo braço, levou-se a um canto e respondeu:
– Que casamento, George? Eu ia caindo numa esparrela. Saí a tempo. Seu eu não fosse arisco como um sibite estaria hoje nas mãos daquela vigarista.
– Mas você não tinha me dito que finalmente descobrira o verdadeiro amor? Que sua noiva era um poço de virtudes?
– Você não sabe o que aconteceu... Depois de várias semanas de felicidade, decidi ir à Taquarana conhecer a família da moça. Chegamos à casa de uma irmã, que me olhou com desdém, deixando bem claro o desprezo que sentia por mim. Conversamos um pouco na sala e a anfitriã fazia questão de me ignorar. Sob o pretexto de coar um café, a dona da casa chamou-a para conversar na cozinha. Meio desconfiado, levantei-me do sofá e, pé ante pé, encostei o ouvido na parede para escutar o que elas tramavam.
Olhou fixamente para mim, com os olhos injetados de sangue, a boca levemente trêmula de emoção:
- A megera perguntou à minha bela noivinha (senti um toque de ironia em sua voz) por que ela, tão bonita e jovem, havia arrumado um velho como eu, que mal se segurava em pé. Sabe o que ela respondeu? “você fez tudo certinho e hoje é uma pobretona. O que adiantou casar por amor? Eu sou mais esperta. Darei o golpe do baú. O coroa tem uma aposentadoria de 18 mil reais! Sabe o que é isso? Terei dois filhos com ele, depois lhe dou um belo chute na bunda e, ainda por cima, embolsarei uma gorda pensão alimentícia para o resto da vida!"
– E o que você fez após essa trágica descoberta?
– Nada. Dei meia volta, abri a porta sem fazer barulho e ganhei o mundo. Entrei no carro e parti sem olhar para trás. Nunca mais encontrei aquela dissimulada.
Ainda emocionado abraçou-me calororamente e disse:
– Depois dessa, quem falar em casamento na minha frente vira inimigo.
E voltou à sessão do "senadinho" mais solteiro do que nunca.

Foto: http://3.bp.blogspot.com/_ncSSGv4MaLQ/SP

segunda-feira, 27 de julho de 2009

FLORIANÓPOLIS E A CRISE DE IDENTIDADE


GEORGE SARMENTO

Há pessoas que se sentem tão incomodadas com seus nomes de batismo que ficam loucas para se livrar deles o mais rápido possível. O problema é que a legislação brasileira só autoriza a modificação do prenome quando há erro de grafia ou exposição ao ridículo. Os cartórios de registro estão cheios de averbações bizarras como Manoel Sola de Sá Pato, Dosolina Piroca, Joaquim Pinto Molhadinho, Otávio Bunda Seca, José Xixi e Vivelinda Cabrita. Sem falar em prenomes como Venério, Bucetildes, Waldisnney, Libertino e por aí vai. A lista é tão grande quanto à criatividade do nosso povo.

Estou convencido de que a empatia entre nome e usuário é um dos elementos mais importantes para a auto-estima. Como promotor de justiça atuei em muitas ações de retificação envolvendo homens e mulheres insatisfeitos com seus prenomes. Lembro-me da alegria de Lúcio, um travesti de Marechal Deodoro que se submeteu à cirurgia de mudança de sexo numa clínica marroquina e passou a chamar-se Lucileide. E da tristeza de Stephanie, que simplesmente detestava ser chamada assim, embora fosse xará de uma das mais belas e sedutoras princesas de Mônaco. O indeferimento do juiz condenou-a a suportar enternamente o companheiro indesejável.

Estava pensando nessas coisas quando desembarquei em Florianópolis para participar de uma banca examinadora no doutorado da UFSC. Já havia notado um certo desconforto dos moradores em considerar o Marechal Floriano Peixoto um ícone da cidade. No principal museu não há qualquer homenagem ao ilustre alagoano, tampouco exaltação dos seus feitos na Guerra do Paraguai ou à frente da Presidência da República. As placas nas ruas, as estampas das camisetas, os textos publicitários, os jornais, em tudo se percebe claramente a preferência pelo vocábulo Floripa.

Qual a razão de tanta resistência? Realmente, o sufixo polis unido ao nome próprio denota apropriação, posse, controle. Cidade de Floriano, talvez soe presunçoso. Mas não é essa a razão. Senão os moradores de Petrópolis, Tiradentes e João Pessoa teriam a mesma reação. Após perfunctórias investigações, uma perguntinha aqui outra ali, descobri que o velho marechal não é uma figura muito popular por essas bandas. Não pelo fato de ser alagoano, mas pelas atrocidades que lhe são atribuídas. Os mais exaltados o chamam de sanguinário e tirano. Alguns chegam mesmo a propor a mudança de nome da cidade.

Santa Catarina foi palco da Revolução Federalista, movimento político encabeçado por setores conservadores da aristocracia rural, interessados em manter privilégios herdados da monarquia. A revolta começou em 1893 e tinha natureza separatista. Redundou na criação do Estado de Santa Catarina - país livre e independente do restante do Brasil. Os golpistas eram extremamente violentos e disseminavam o terror entre a população. Coube a Floriano Peixoto a difícil tarefa de consolidar a república recém-criada, mesmo que, para isso, tivesse de enfrentar os dissabores de uma guerra fraticida.

Designou o coronel Moreira Cesar para sufocar a revolta e restabelecer a ordem constitucional. Depois de algumas batalhas, as tropas legalistas romperam o cerco e se instalaram na ilha de Nossa Senhora do Desterro. Foi aí que começou o ajuste de contas, com a execução sumária dos líderes revoltosos, entre eles grandes proprietários de terra, políticos, militares e banqueiros. O Corta Cabeças, como ficou conhecido o coronel, foi o responsável pelo fuzilamento de mais de 300 pessoas sem clemência ou julgamento por um tribunal. A atuação do sanguinário militar em terras catarinenses desgastou a imagem de Floriano Peixoto, que passou a ser estigmatizado como um cruel ditador.

Afinal, quem é esse emblemático personagem da História do Brasil? Eu tinha meus 5 ou 6 anos de idade quando meus pais compraram um pequeno lote na praia de Ipioca. Os filhos puseram roupa nova para conhecer a nova "propriedade", com direito a retrato e tudo. Foi um grande acontecimento familiar. Lembro-me perfeitamente quando o meu pai apontou para o alto do morro e disse: "Ali nasceu Floriano Peixoto, o segundo presidente do Brasil". Sempre que posso visito o local, um mirante de onde se tem uma vista paradisíaca do mar e de seus extensos coqueirais, ainda não devastados pela especulação imobiliária. Do marechal, resta apenas uma modesta placa indicativa do acontecimento natalício. Nada mais.

Floriano Peixoto nasceu em uma família muito pobre e foi criado por seu padrinho, um modesto fazendeiro alagoano. Logo cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi brilhante aluno da Escola Militar. Teve notável participação na Guerra do Paraguai, tomando parte de missões arriscadas que exigiam muita disciplina e coragem pessoal. Com a renúncia de Deodoro da Fonseca, assumiu a presidência da república e foi obrigado a enfrentar vários levantes nas Forças Armadas contra o governo. Agiu com energia e saiu vitorioso. Morreu aos 52 anos de idade, de complicações digestivas adquiridas nos campos de batalha.

A verdade é que o Marechal de Ferro foi um dos grandes responsáveis pela unidade nacional num momento em que o Brasil estava ameaçado de se esfacelar em várias repúblicas, seguindo o legado espanhol na América do Sul. Os seus métodos de ação foram controvertidos e, muitas vezes, violentos. Mas ninguém pode negar que a força de seu patriotismo foi decisiva para proteger o país das elites retrógradas, muito mais interessadas na manutenção dos seus privilégios do que em construir uma pátria para todos os brasileiros.

Retorno à Terra dos Marechais sem nenhuma crise de identidade e cada vez mais orgulhoso de ter nascido alagoano.