quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

COTIDIANO EM MOVIMENTO

GEORGE SARMENTO
Cotidiano, de Chico Buarque de Holanda, é um clássico da música popular brasileira que fez muito sucesso nos anos 70 pela mensagem subliminar de inconformismo com a sufocante rotina de alguns casais. A narrativa não poderia ser mais clara: “todo dia ela faz tudo sempre igual”. E por aí segue com a descrição dos atos repetitivos, previsíveis e entediantes de sua mulher. O paradoxal é que o tédio do personagem não é provocado pela indiferença da fêmea, mas por um conjunto de manifestações de afeto que ela lhe dirige, possivelmente para manter acesa a chama do amor.
Quase sempre a palavra cotidiano tem uma conotação negativa, estagnante. Geralmente é usada para descrever a acomodação das pessoas a hábitos adquiridos pela repetição mecânica ou inconsciente. Funciona como o escudo protetor daqueles que não querem deixar a zona de conforto para enfrentar os riscos de uma jornada incerta e inusitada. Representa o lado estático da existência humana, a sensação de segurança que experimentamos ao percorrer caminhos conhecidos que nos levam ao destino esperado, sem surpresas ou sobressaltos.
Há pessoas que não quebram sua rotina por nada nesse mundo. Traçam uma rota para as suas existências e se recusam a tomar atalhos, arriscar novas trilhas, mergulhar no desconhecido. Qualquer desvio é motivo para inseguranças, temores, pânico. Acreditam ser possível proteger-se das incertezas cada vez mais presentes na sociedade contemporânea, tão complexa e fluida. São vagões que jamais saem dos trilhos.
Muitas vezes é preciso que um acontecimento trágico nos desperte para a beleza da vida. Para as experiências maravilhosas que podemos experimentar se tivermos coragem de mudar de atitude, de vermos as coisas sob outra perspectiva. Somos obrigados a conviver com perdas. Essa é a lei da existência. Minha mãe partiu prematuramente aos 50 anos de idade, vítima de um derrame cerebral fulminante, deixando para trás os filhos, a música e a literatura que tanto amava. Meu pai foi arrancado da vida por um acidente automobilístico brutal, no auge de sua carreira profissional – ainda cheio de sonhos e energia. Agora mesmo meu tio Mendonça Neto luta bravamente contra um câncer com a mesma coragem com que combateu a corrupção e os desmandos de uma elite parasita que há séculos dilapida impiedosamente o Estado de Alagoas.
Nenhum desses acontecimentos poderia ser previsto por mim ou por quem quer que seja. O importante é que essas fatalidades não me tornaram um pessimista, invejoso ou descrente. Antes um otimista, como o Cândido, de Voltaire. Sou uma pessoa comum. Tenho virtudes e defeitos. Mas a cada dia reforça em mim a convicção de que é preciso evoluir moral e espiritualmente. Luto muito contra a dificuldade de dizer não, o injustificado sentimento de culpa e o altruismo exagerado que insiste em reconhecer o direito dos outros em detrimento dos meus. Enfim, nada que não possa ser superado através de reflexões racionais e objetivas.
Há pessoas que simplesmente são incapazes de resistir às frustrações de expectativas. Não percebem que a vida tem várias portas e muitas delas podem nos trazer felicidade. Simplesmente não sabem lidar com a transitoriedade das coisas. Apegam-se a ilusões como o poder, a bajulação, os bens materiais, a notoriedade, mas não se preparam para as adversidades que todas as mudanças proporcionam. Não sabem enfrentar o ostracismo, a solidão, o esquecimento e a ingratidão. Fujo desse estigma e me recuso a assumir a condição de vítima de quem quer que seja.
Em pleno século XIX, Baudelaire já afirmava que a modernidade é o transitório, o efêmero e o contigente. Nada é permanente, sólido, imutável. A vida não pode se cristalizar em hábitos que produzem a falsa sensação de segurança. As nossas certezas viraram pó. O que hoje é novidade, amanhã será obsoleto. Os castelos inespugnáveis podem se transformar num amontoado de grãos de areia.
Eis o que eu queria dizer: O COTIDIANO TEM DE ESTAR EM PERMANENTE MOVIMENTO! Nada impede que a rotina modorrenta possa se transformar na exploração do novo, do desconhecido e do belo. Como adotar um novo paradigma para as nossas vidas? Uma amiga muito querida costuma dizer que “a criatividade é infinita”. Ela tem razão. Não há respostas prontas. Cada um tem o seu ritmo e intuição, a voz interior que insiste em nos lançar no labirinto desse mistério que se chama vida.
Feliz 2010!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

DO TRAJE AO ULTRAJE: A DECOMPOSIÇÃO DE UM ESTILO DE VIDA


GEORGE SARMENTO

O estilo nada mais é que o movimento da alma”, sentenciou Michelet . Buffon chegou mesmo a afirmar que “o estilo é o próprio homem”. É o retrato do espírito em toda sua crueza e contradições. A moda é um dos mais importantes códigos de comportamento social. É o elo que une o homem à contemporaneidade. É a expressão do apogeu, acomodação ou decadência de uma vida. Daí porque a análise da personalidade humana sob a perspectiva da indumentária e do mobiliário doméstico é um dos temas mais recorrentes da literatura universal.
É também o pano de fundo de Do Traje ao Ultraje, a mais recente obra de Enaura Quixabeira, lançada em edição bilíngüe (português-francês) pela EDUFAL, em comemoração ao Ano da França no Brasil. Trata-se de crítica literária ao romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.
Editado em 1959, o romance aborda a decadência da aristocracia rural provocada crise do café em Minas Gerais, nas primeiras décadas do século XX. Um clássico da literatura, ainda desconhecido de boa parte dos leitores brasileiros.
A Autora mergulha no universo cardosiano para analisar a decadência de um estilo de vida que não conseguiu sobreviver às profundas mudanças no cenário econômico do Brasil. A trama do romance gira em torno da tradicional Família Meneses, que resiste às mudanças de valores sem se dar conta de sua impotência diante de uma nova era que destruirá para sempre o modelo patriarcal e endurecido pela rigidez de costumes que imperava nos latifúndios brasileiros.
Acontece que o inflexível sistema moral – aparentemente sólido e inquebrantável – alimentava-se de hipocrisia, remorsos, auto-exílio e suicídio. Um modelo preso a convenções irracionais, em que não há espaço para felicidade e o amor. O pior é que os membros da família, imersos em frustrações, nem percebem a putrefação de seu universo, que está prestes a desmoronar.
Nesse aspecto, a obra da professora Enaura Quixabeira desenvolve uma interessante análise sociológica sobre os fatores que provocaram a estagnação do regime semi-feudal que imperou no Brasil até 1930, época em que o poder concentrava-se nas mãos dos senhores de engenho e dos barões do café.
Os Meneses são o arquétipo de tantas outras famílias aristocráticas brasileiras que só concebem o país como produtor de matéria-prima, uma elite que se recusa a adaptar-se aos tempos de progresso e de desenvolvimento. Famílias que não conseguiram perceber as mudanças decorrentes do fim da mão-de-obra escrava, da chegada dos imigrantes, da mecanização agrícola, da migração para os centros urbanos e da crescente industrialização do país.
Os primeiros sinais do declínio podem ser percebidos pelo mobiliário. A chácara era velha, com muitos cômodos vazios e descuidados. Nota-se que a mobília, importada da Europa, estava descuidada e imprestável. Um grande espelho trincado de lado a lado, paredes descascadas, janelas que não se abriam, telhas tombadas são alguns sinais do isolamento e segregação social de seus habitantes.
A decadência também é retratada por uma sucessão de personagens que corporificam a desintegração familiar. Demétrio – a representação do patriarca – invariavelmente usava roupas antigas, conservadoras, completamente fora dos padrões das primeiras décadas do Século XX.
Os ricos fazendeiros recusavam-se afastar-se das tradições para aderir a modismos burgueses, de gosto questionável. A resistência é uma tentativa desesperada de preservar estruturas corroídas, profundamente ameaçadas pelas forças sociais transformadoras. Aderir à nova ordem significa pôr fim às estruturas sólidas que vicejaram por vários séculos no Brasil. E isso eles não admitirão jamais.
A personagem, Valdo, também se veste com esmero, apuro e espalhafato. Seus ternos e gravatas são bem cortados, vistosos, mas fora de moda. Incorpora – ainda que intuitivamente – o dandismo europeu com todas as suas extravagâncias visuais e a certeza da inexorável decadência, diante do avanço da democracia e do processo de estandardização do vestuário.
Outra personagem paradigmática é Ana, mulher torturada pela solidão e pelo medo de entregar-se ao amor, incapaz de transgredir as regras e viver um romance proibido. Mulher ensimesmada, atormentada pelo pecado, completamente voltada para o universo familiar. Transforma-se numa espécie de guardiã dos costumes, adotando postura hipócrita e dissimulada. A frustração reflete-se em suas vestes, um indefectível vestido preto, desbotado, austero. Seus sapatos, velhos e surrados, mostram o total alheamento às tendências da moda. É uma pessoa descontextualizada, estranha à sua época. Adota uma postura conservadora de defesa das tradições aristocráticas e se mostra refratária a toda tentativa de transformação do modus vivendi da família. Por isso vê a moda como uma ameaça ao frágil equilíbrio daquele modelo ultrapassado, que insistia em sobreviver num mundo em constantes transformações.
Nina representa a chegada da modernidade naquele ambiente esclerosado e decadente. Sua indumentária alegre, colorida e sensual, contrastava com o clima severo que dominava a mansão dos Meneses. A indumentária era um convite à subversão da ordem familiar. O gosto por vestidos decotados, leves, vaporosos era uma forma de desafiar a monocromia dos salões senhoriais – o último bastião de uma estrutura social prestes a desmoronar. No fundo a personagem tentava mostrar ser possível romper com o passado e enfrentar os desafios que o novo século impunha.
Mas as resistências às mudanças de paradigma estavam tão arraigadas entre os Meneses, que Nina terminou afogada pelo preconceito, pela intolerância e pelo imobilismo. Sua presença não foi capaz de mudar os velhs hábitos. Os chapéus coloridos, os decotes, os acessórios vistosos, as capas, tudo evocava o frescor de um novo mundo que se descortinava. Mas era inútil. Assim como a modernidade fora afastada para sempre dos aposentos senhoriais , Nina também sucumbiu a uma doença que destruiu os seus sonhos, degradou a alma e apodreceu lentamente o corpo. A sua morte também foi o último passo para a decadência e a ruína da família.
Por fim, a imagem da decadência é representada por um obeso barão. Flácido, completamente dominado pela gula desmedida, uma verdadeira representação da ociosidade em detrimento do trabalho e do progresso da nação. Um simbolismo ao agonizante baronato rural, completamente incapaz de conduzir o Brasil a caminho da modernidade.
Mais do que uma crítica literária, Do Traje ao Ultraje é uma obra de grande densidade científica, que nos faz refletir sobre importante período da História do Brasil. O texto é límpido, de fácil compreensão, dispensando a leitura da Crônica da Casa Assassinada. As teses defendidas pela autora encontram eco em grandes sociólogos franceses como Baudrillaard e Fromilhage. A obra é fruto de profunda pesquisa realizada na Universidade de Grenoble, onde a autora obteve o Doutoramento em Letras.
O vestuário é a armadura do homem. Oscar Wilde afirmava, com fina ironia, que “a moda é o que vestimos. Démodé é o que vestem os outros”. Mas uma coisa é certa: ela pode revelar os nossos segredos mais profundos, o jardim secreto de nossas almas. É o que diz o verso do cancioneiro popular Zeca Baleiro: "quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio. Um dia um feio inventou a moda, e toda a roda amou o feio". Tenho certeza que Du Vêtu au Dévetu ocupará espaço privilegiado na literatura brasileira, como referência obrigatória para todos que desejarem desvendar a essência da natureza humana a partir de símbolos e arquétipos de estilos de vida.