segunda-feira, 27 de julho de 2009

FLORIANÓPOLIS E A CRISE DE IDENTIDADE


GEORGE SARMENTO

Há pessoas que se sentem tão incomodadas com seus nomes de batismo que ficam loucas para se livrar deles o mais rápido possível. O problema é que a legislação brasileira só autoriza a modificação do prenome quando há erro de grafia ou exposição ao ridículo. Os cartórios de registro estão cheios de averbações bizarras como Manoel Sola de Sá Pato, Dosolina Piroca, Joaquim Pinto Molhadinho, Otávio Bunda Seca, José Xixi e Vivelinda Cabrita. Sem falar em prenomes como Venério, Bucetildes, Waldisnney, Libertino e por aí vai. A lista é tão grande quanto à criatividade do nosso povo.

Estou convencido de que a empatia entre nome e usuário é um dos elementos mais importantes para a auto-estima. Como promotor de justiça atuei em muitas ações de retificação envolvendo homens e mulheres insatisfeitos com seus prenomes. Lembro-me da alegria de Lúcio, um travesti de Marechal Deodoro que se submeteu à cirurgia de mudança de sexo numa clínica marroquina e passou a chamar-se Lucileide. E da tristeza de Stephanie, que simplesmente detestava ser chamada assim, embora fosse xará de uma das mais belas e sedutoras princesas de Mônaco. O indeferimento do juiz condenou-a a suportar enternamente o companheiro indesejável.

Estava pensando nessas coisas quando desembarquei em Florianópolis para participar de uma banca examinadora no doutorado da UFSC. Já havia notado um certo desconforto dos moradores em considerar o Marechal Floriano Peixoto um ícone da cidade. No principal museu não há qualquer homenagem ao ilustre alagoano, tampouco exaltação dos seus feitos na Guerra do Paraguai ou à frente da Presidência da República. As placas nas ruas, as estampas das camisetas, os textos publicitários, os jornais, em tudo se percebe claramente a preferência pelo vocábulo Floripa.

Qual a razão de tanta resistência? Realmente, o sufixo polis unido ao nome próprio denota apropriação, posse, controle. Cidade de Floriano, talvez soe presunçoso. Mas não é essa a razão. Senão os moradores de Petrópolis, Tiradentes e João Pessoa teriam a mesma reação. Após perfunctórias investigações, uma perguntinha aqui outra ali, descobri que o velho marechal não é uma figura muito popular por essas bandas. Não pelo fato de ser alagoano, mas pelas atrocidades que lhe são atribuídas. Os mais exaltados o chamam de sanguinário e tirano. Alguns chegam mesmo a propor a mudança de nome da cidade.

Santa Catarina foi palco da Revolução Federalista, movimento político encabeçado por setores conservadores da aristocracia rural, interessados em manter privilégios herdados da monarquia. A revolta começou em 1893 e tinha natureza separatista. Redundou na criação do Estado de Santa Catarina - país livre e independente do restante do Brasil. Os golpistas eram extremamente violentos e disseminavam o terror entre a população. Coube a Floriano Peixoto a difícil tarefa de consolidar a república recém-criada, mesmo que, para isso, tivesse de enfrentar os dissabores de uma guerra fraticida.

Designou o coronel Moreira Cesar para sufocar a revolta e restabelecer a ordem constitucional. Depois de algumas batalhas, as tropas legalistas romperam o cerco e se instalaram na ilha de Nossa Senhora do Desterro. Foi aí que começou o ajuste de contas, com a execução sumária dos líderes revoltosos, entre eles grandes proprietários de terra, políticos, militares e banqueiros. O Corta Cabeças, como ficou conhecido o coronel, foi o responsável pelo fuzilamento de mais de 300 pessoas sem clemência ou julgamento por um tribunal. A atuação do sanguinário militar em terras catarinenses desgastou a imagem de Floriano Peixoto, que passou a ser estigmatizado como um cruel ditador.

Afinal, quem é esse emblemático personagem da História do Brasil? Eu tinha meus 5 ou 6 anos de idade quando meus pais compraram um pequeno lote na praia de Ipioca. Os filhos puseram roupa nova para conhecer a nova "propriedade", com direito a retrato e tudo. Foi um grande acontecimento familiar. Lembro-me perfeitamente quando o meu pai apontou para o alto do morro e disse: "Ali nasceu Floriano Peixoto, o segundo presidente do Brasil". Sempre que posso visito o local, um mirante de onde se tem uma vista paradisíaca do mar e de seus extensos coqueirais, ainda não devastados pela especulação imobiliária. Do marechal, resta apenas uma modesta placa indicativa do acontecimento natalício. Nada mais.

Floriano Peixoto nasceu em uma família muito pobre e foi criado por seu padrinho, um modesto fazendeiro alagoano. Logo cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi brilhante aluno da Escola Militar. Teve notável participação na Guerra do Paraguai, tomando parte de missões arriscadas que exigiam muita disciplina e coragem pessoal. Com a renúncia de Deodoro da Fonseca, assumiu a presidência da república e foi obrigado a enfrentar vários levantes nas Forças Armadas contra o governo. Agiu com energia e saiu vitorioso. Morreu aos 52 anos de idade, de complicações digestivas adquiridas nos campos de batalha.

A verdade é que o Marechal de Ferro foi um dos grandes responsáveis pela unidade nacional num momento em que o Brasil estava ameaçado de se esfacelar em várias repúblicas, seguindo o legado espanhol na América do Sul. Os seus métodos de ação foram controvertidos e, muitas vezes, violentos. Mas ninguém pode negar que a força de seu patriotismo foi decisiva para proteger o país das elites retrógradas, muito mais interessadas na manutenção dos seus privilégios do que em construir uma pátria para todos os brasileiros.

Retorno à Terra dos Marechais sem nenhuma crise de identidade e cada vez mais orgulhoso de ter nascido alagoano.

sábado, 25 de julho de 2009

FATOS E EVENTOS

GEORGE SARMENTO
Aprendi com Pontes de Miranda que a vida é uma sucessão de fatos e eventos que se desenvolvem na dimensão tempo-espaço. Essa definição tem tudo a ver com um aquariano que insiste em ser utópico e está sempre envolvido com novos projetos, muitos dos quais jamais serão realizados. Alguns dizem que sou desligado, esquecido, dispersivo, sonhador. Será? O que pode parecer insensato para uns, é super normal para outros. O que detesto mesmo é a rotina inflexível, a monotonia da repetição, a previsibilidade de atitudes. Além do mais há uma certa coerência no caos.
Você pode estar no epicentro dos acontecimentos ou simplesmente ser testemunha deles. Pode escolher entre ser protagonista ou coadjuvante de sua própria vida. A decisão é sua. Quando Rousseau fugiu do internato, livrou-se do autoritarismo e de toda opressão que imperava naquele ambiente inóspito. Ao tomar a decisão, não tinha dinheiro, abrigo ou qualquer perspectiva de estabilidade. Era apenas um adolescente ousado. Mesmo assim sentiu o coração pleno de felicidade. Descobrira o mais precioso de todos os direitos: a liberdade. Mais tarde descreveu em suas Confissões o prazer que sentira naquele momento, com uma bela frase: "Pour la première fois dans ma vie j'étais libre e maître de moi même" (pela primeira vez em minha vida eu era livre e senhor de mim mesmo). Demais, não? E pensar que tantas pessoas vivem sob o jugo financeiro ou emocional de outras, sem jamais sentir o sabor da liberdade...
Acho bem legal quando várias coisas acontecem ao mesmo tempo. A gente sente a vida pulsar, sai do marasmo, da mesmice, da estagnação. A vida é movimento, ação, múltiplos interesses. Muitos acreditam que, quando um rio caudaloso se divide em vários afluentes, perde a força e pode, até mesmo, transformar-se num prosáico regato. Quando se trata da condução da locomotiva da vida, quanto mais caminhos trilharmos mais fortes ficaremos, tanto física como espiritualmente.
Os esotéricos juram de pés juntos que estamos na Era de Aquário. Se é verdade, todos devem absorver por osmose algumas características desse signo. Imaginem um mundo povoado apenas por aquarianos, estranhos seres que vivem no futuro e tentam tocar as nuvens com a ponta dos dedos! Garanto que algumas coisas até seriam boas: não teríamos inveja, não guardaríamos rancores, não alimentaríamos ódio no coração, saberíamos perdoar. Construiríamos uma nova civilização, um mundo harmônico, pleno de amor com compreensão. Vou parar por aqui para não parecer promessa de político em campanha eleitoral.
Andei ausente do blog. Confesso que fui atropelado pelos fatos que se sucederam nos últimos dias numa velocidade alucinante. E a dimensão tempo foi tão curta... Tanta coisa aconteceu – a finalização de um livro a ser lançado na bienal, a candidatura ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, a viagem a Florianópolis para participar de banca examinadora na UFSC, o curso para magistrados e servidores da Justiça Federal, a organização do Ano da França no Brasil... Sem contar os dilemas existenciais, que roubam o tempo e consomem muita energia.
Ufa! Foi demais para um aquariano comum, que tem aversão a jornadas de trabalho muito longas. Ainda bem que tenho o Isaac Sandes, amigo que também é um implacável retratista de personagens incomuns, bizarros, folclóricos que povoam o nosso cotidiano. Tenho certeza que os leitores deram boas gargalhadas dos seus deliciosos textos de fina ironia e muito bom humor. Afinal, quem não conhece um valorizador? Ou um canalha? Ou uma foquinha? Na minha ausência Isaac não deixou a peteca cair e manteve o blog animado e interessante.
Agradeço os 1200 acessos e prometo que os próximos dias serão bem divertidos, com muita conversa jogada fora e (es)histórias para contar.
George