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terça-feira, 1 de setembro de 2009

BELEZA

ISAAC SANDES

De repente, me assalta a pergunta e penso alto. “Existirá a beleza, em si mesma?” Então o amigo que se encontrava próximo, de peito estofado por helênica sabedoria, enigmático, fazendo cara de erudito do Readers Digest responde: “Depende!”. Este depende tinha o tamanho do Mistério da Aleluia.
E eu, diante de tanta pompa e circunstância, encolho-me amarelado, e ouso fazer a arriscada e conseqüente pergunta: - “Depende do que?” - Após charmoso meneio de cabeça, - Só faltou dizer “Tick”, como indiano de novela - Meu interlocutor responde com uma tirinha de perguntas: “ Amigo, tudo é relativo? É ou não é?” E jogou no ar uma espessa baforada do legítimo Montecristo.
Diante do górdio impasse, fiz cara de Gugu Literato e resolvi abandonar o socorro do erudito amigo e, por conta própria, passei a queimar meus preciosos neurônios na busca da quase impossível resposta.
Ainda reverberando na cabeça, a escapista pergunta do erudito, fui ao Gugu, o inteligente, e lá digitei: - Relatividade – Resultado: 456.000 ocorrências, para relatividade. Tinha, Einstein, velocidade da luz, buraco negro, buraco de minhoca, fenda espacial, E=mc2. Confesso que fiquei um tanto quanto atarantado e fiz recomendações elogiosas à genitora do erudito amigo.
Com medo de entrar em parafuso, aterrissei na secular questão, usando as ferramentas de pensamento a meu alcance. No entanto, não me saía da cabeça a questão: “Tudo é relativo”. Pensei: - Se tudo é relativo, a beleza também o é. Ora, tava ali o desenlace, tão claro, mas tão claro, que não me deixava enxergar. Pois é amigos, a clareza muita vezes nos ofusca. É por isso que o imortal Nelson Rodrigues nos falava do “Óbvio ululante”, e dizia: “Só os gênios conseguem enxergar o óbvio ululante".
Pronto, a beleza é relativa, por isso o sapo morre de amores pela sapa, o urubu acha lindo seu filhote, encontramos casais que acreditamos não pertencer à mesma espécie, pessoas amando outras que parecem ter saído de um experimento genético vanguardista.
No entanto, me assalta uma recaída de dúvida. – Será que não existe um mínimo de padrão de beleza? Diante de um Michelangelo alguém poderia dizer: A beleza é relativa, acho-o um lixo, horrível. Diante de uma Capela Sistina, insistir com tédio: “ Mais ou menos, na calçada da Praça da República existem centenas de pinturas mais belas “. Diante do Out Door da moça da Lancome o outro a dizer: “ Nada de mais, vi muito mais beleza numa Dercy, numa Zezé”.
Garanto a vocês que, estivesse por perto, meu erudito amigo abandonaria sua ensaiada fleugma, esqueceria o “Tudo é relativo” e, com um taco de beisebol, partiria o coco de hereges observadores, numa versão pós moderna de “laranja Mecânica”.
Por falar no erudito amigo, outro dia, andava eu já com pensamentos terrenos e esquecido da Einsteiniana discussão travada lá atrás, quando o encontro. Esbaforido, cabelos assanhado, pose desfeita e em estado de pluvial sudorese. Praticamente me arrastou pela gola e, sem nenhuma introdução, foi dizendo: “Não, não. Não é relativa! não é relativa! Agora eu sei, não é relativa !”. Assombrado e sem me lembrar do esquecido debate, pensei: - “ “Meu Deus, está tendo um surto de esquizofrenia “ – Me recompondo e procurando cuidadosamente interagir com o surtado, perguntei: - O que não é relativa ? O que ?”. E ele: “ A beleza amigo, a beleza, ela existe, é concreta, não há relatividade nela, o belo é belo e o feio é feio, eis a verdade indiscutível e imutável “. Como na piada de Camões, tardiamente me caiu a ficha, lembrei-me de nossa antiga discussão e da sua, então, olímpica posição em favor da relatividade da beleza.
Naquele momento, senti que em vez de um surto de esquizofrenia, meu impostado amigo havia saído do seu surto de erudição e recobrado sua humilde condição humana.
Intrigado, comecei a imaginar em que momento da sua etérea vida ele havia se recuperado de sua síndrome de Zeus. Teria se tornado Hare Krishna, Budista, taoista? Então, me sentindo mais próximo de um humano perguntei-lhe: - “ Amigo, como chegaste a esta segura e definitiva conclusão?”. E ele, ainda ofegante: - “Fazendo Pilates, a beleza faz Pilates!!”. Mais intrigado ainda pergunto: - Pilates...??? Como assim? “. Enfim, recuperando a calma, explica: - “Pois é amigo, descobri que a beleza existe e faz Pilates, ela está personificada em uma das minhas colegas de Pilates. Toda vez que a vejo bato na boca e, baixinho repito: - Nunca mais diga tal asneira. A beleza existe, ela está bem ali em nossa frente, e a boca me repreende. - Desculpe não fui eu, eu só falei, seus olhos é que chegaram a tal conclusão e me mandaram falar, pois não são eles que tudo vêem e tudo julgam? Eu apenas verbalizava o que eles viam ”.
Eu, que um dia fui me socorrer daquela pose de obelisco, a partir dali, nunca mais discuti sobre a certeza ou a relatividade das coisas ou sentimentos, com especial destaque para a beleza, já que tudo é absolutamente relativo em determinado momento e, da mesma forma, é indubitavelmente concreto em outro. Assim; como foi, e é, a pendular certeza do erudito amigo. Tudo depende apenas do estado em que nossa alma se encontra ao ver as coisas, os fatos e as pessoas.

Isaac Sandes27/08/2009

3 comentários:

alex purger disse...

Me custa crer que tamanha constatação possa ter vindo de uma singela aula de pilates....

Tal qual Thomé, incumbido de ver tal chaga para comprovar o milagre....me coloco a disposição do autor da matéria para ver...in loco....a beleza do pilates....até sexta isaac....

Vivi disse...

Confesso que fiquei curiosa para descortinar a face da beleza. Beleza tão eloqüente, que sem lançar uma única palavra conseguiu mudar uma opinião tão segura de si!! rsrsrsrsrs

Isaac Sandes disse...

Tudo ficção, pura ficção. São impressões literárias.